Os avisos de Costa: "Seria uma enorme perda que fosse prejudicada a boa relação"

30 de Outubro de 2017 | por Público
Os avisos de Costa:

Pragmático. É este o adjectivo que descreve o primeiro-ministro que se apresentou neste domingo diante das câmaras da TVI para a primeira entrevista, depois dos mais recentes incêndios que assolaram o país. Pragmático, admitiu que se subestimaram os riscos de fogos na primeira quinzena do mês. Pragmático, disse que é preciso agir, chega de palavras, já “estão ditas”. Agora é “pôr mãos à obra”, sem a preocupação de que a reconstrução do que ardeu pese no défice. Pragmático, mas também político, deixou ainda avisos sobre a relação com o Presidente da República: "Seria uma enorme perda para o país que fosse prejudicada a boa relação".

A relação entre Governo e Presidente valeram uma comparação lida nas entrelinhas: nem em livro de memórias revelará as conversas com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, disse Costa, sem nunca falar directamente do livro de Cavaco Silva. Hábil, recusando várias vezes esclarecer se, sem o murro na mesa de Marcelo, teria mantido a ex-ministra da Administração Interna no cargo.

E demitir-se? Passou-lhe pela cabeça? A resposta foi clara: “Não.” É, mais uma vez, o político na pele de um pragmático: explicou que o centro das preocupações foi responder às pessoas, foi lançar programas, avançar com a reforma da floresta, mexer no sistema de protecção civil. Não foi demitir-se o que lhe passou pela cabeça.

Assim como não lhe passa pela cabeça que a mudança de liderança no PSD possa contribuir para uma alteração na atitude do Presidente em relação ao Governo. Diz respeitar demasiado Marcelo Rebelo de Sousa para traçar esse cenário: “Acho que seria impensável.”

António Costa garante, aliás, o total empenho do Governo em contribuir para as boas relações com Belém, em continuar a manter o Presidente informado de tudo e em garantir uma “relação franca” e de “lealdade institucional”. “Da minha parte, não há crispação nenhuma”. Com Marcelo, que até foi professor de Costa na faculdade, não seria diferente do que aconteceu com Cavaco Silva, disse aí. Para o primeiro-ministro, “o país já tem um excesso de problemas”, não é preciso acrescentar mais um: as querelas entre Belém e São Bento. Mais um aviso a caminho de Belém.

A revolta “legítima” e “normal”

Em concreto sobre esses problemas, Costa voltou a sublinhar a “excepcionalidade” daqueles dias, em particular de 15 para 16 de Outubro, e que naquelas circunstâncias “todos os meios teriam sido manifestamente insuficientes”. Mas admitiu também ser “manifesto” que se subestimaram os riscos de incêndio nesta primeira quinzena de Outubro, assim como os riscos do furacão Ophelia. Só não foi claro sobre quem subestimou. Posto isto, também não escondeu que, nas visitas que fez pelos territórios afectados pelas chamas, viu a revolta das pessoas: “É legítimo, é normal.”

Apesar de continuar afastado dos discursos emotivos, o primeiro-ministro quis falar aos cidadãos. Garantindo aos portugueses que, neste momento, é “absolutamente prioritário” reconstruir – os territórios, a vida das pessoas que perderam casas e o trabalho, permitir que se fixem no interior. Mas com o alerta de que não se pode voltar a reconstruir, deixando o território como estava: “Daqui a 12 anos não podemos estar numa situação idêntica.” Aliás, mesmo no final da entrevista, assegurou “o compromisso” de que “nada fique como antes”.

O primeiro-ministro referiu-se à existência não só de apoios para a reconstrução de casas, como a mecanismos de apoio à manutenção de postos de trabalho, a medidas de apoio ao emprego e reconstrução de empresas (que passam, entre outras possibilidades, por isenção ou adiamento de contribuições para a Segurança Social). E lembrou que, até Janeiro, há linhas de apoio com 25 milhões de euros disponíveis para ajudar nestas situações.

Quanto vai custar tudo isto? Vai aumentar o défice? António Costa está convencido que não, graças, entre outros motivos, ao apoio europeu e ao facto de o Governo recorrer a mecanismos de apoio que não contam para o défice. O primeiro-ministro não disse que o cumprimento das metas do défice deixou, de repente, de ser uma preocupação. Mas defendeu que tal não pode impedir de se fazer o necessário: “A última das preocupações que temos de ter é saber o peso para o défice.”

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