“É uma ilusão achar que podemos voltar ao ponto antes da crise”

20 de Novembro de 2017 | por Publico/Radio Nova
“É uma ilusão achar que podemos voltar ao ponto antes da crise”

Falava-se de educação, e do poder desta na conquista da igualdade, na Fundação Calouste Gulbenkian. Perante uma plateia cheia de professores, o Presidente da República deixou transparecer a opinião que não tem querido dar aos jornalistas, quando o questionam sobre as reivindicações dos docentes, que querem recuperar o tempo de serviço perdido com o congelamento das carreiras desde 2011 e em dois anos anteriores.

A crise deixou marcas profundas, é uma ilusão achar que é possível voltar ao ponto em que nos encontrávamos antes da crise – isso não há!”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa. E não há só uma ilusão, mas duas, acrescentou: “A segunda ilusão é achar que se pode olhar para os tempos pós-crise da mesma forma que se olhava antes [para os problemas], como se não tivesse havido crise. A crise deixou traços profundos e temos de olhar para eles”.

À conversa com Catarina Furtado, presidente da Associação Corações com Coroas, num momento em que se falava de violência e bullying, o chefe de Estado tinha identificado a crise que conduziu ao programa de ajustamento como uma das causas de agravamento de situações de violência. Foi a este pretexto que o discurso presidencial se soltou do tema em si e pareceu pairar sobre o processo reivindicativo dos professores.

“A sociedade tem de ter a coragem de assumir os seus problemas. Mas há muito a tendência portuguesa para o ‘mais ou menos’, o ‘assim-assim’, ou a tendência de ‘ganhar um tempinho’. É quando alguém pensa: ‘Bem, consegui ganhar um tempinho. Com sorte isto não dá errado’”.

No momento em que o Governo e os sindicatos assinaram um documento de princípio, que não tem soluções concretas, e adiaram para 15 de Dezembro o retomar das negociações, o paralelismo era evidente. Mas, para o Presidente, “a opção por ‘ganhar um tempinho’ normalmente não dá bom resultado”. Pelo seu lado, Marcelo diz ter “a postura contrária” e optar sempre por “baixar expectativas”.

Catarina Furtado bem o queria levar de volta à escola, e lá ia conseguindo, mas quando disse que Marcelo era optimista, tocou-lhe num ponto fraco: “Eu sou um optimista realista, uma fórmula que uso para me diferenciar de outros tipos de realismo, que também respeito”. Mas agora que o primeiro-ministro tinha sido chamado à conversa, ainda que por mera associação de ideias – António Costa é o "optimista irritante", na linguagem já comum entre os dois – era inevitável pensar que vinha aí mais um recado: “Temos de estar atentos permanentemente aos sinais dos tempos. O educador tem de antecipar as crises. Quem demora muito tempo a responder vai sempre a reboque dos acontecimentos”.

Mas quando é questionado pelos jornalistas com o processo reivindicativo dos professores, a conversa é outra. Como acontecera antes, no final da visita ao Hospital Pediátrico D. Estefânia: “O Presidente da República quer ver primeiro o teor efectivo do que foi acordado e se tem impacto no Orçamento do Estado (OE2018), não vale a pena antecipar. Veremos se alguns processos reivindicativos têm incidência no Orçamento, pode ser que não”.

Interrogado, depois, se não teme que se tenha aberto a "caixa de Pandora" e que se alargue a contestação dos professores a outras classes profissionais, Marcelo Rebelo de Sousa declarou: "Ora aí está um tema que, porventura, será bom para o Presidente da República se pronunciar quando tiver de analisar a promulgação do Orçamento. Como eu tenho o hábito de explicar a minha posição sobre os orçamentos, se for caso disso, eu não me esquecerei dessa sugestão”, prometeu.

Questionado sobre o facto de o líder parlamentar do PS, Carlos César, ter admitido que o défice de 2018 aumente de 1% para 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB), o chefe de Estado respondeu: “Mas isso não é por causa de nenhuma revindicação social. É por causa de uma situação trágica e os portugueses percebem que era preciso acorrer às tragédias de Junho e de Outubro”.

“Não se esqueçam que a tragédia com maior amplitude ocorreu depois de entregue a proposta de Orçamento do Estado e isso implicava um conjunto de despesas, investimentos e apoios, parte dos quais no OE2018, que tinha de ser feito na especialidade”, acrescentou. Com estas, o Presidente concorda. Aliás, em grande parte, exigiu-as na declaração que fez ao país e nos tempos que se seguiram.

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