Alcoólicos esperam mais de dois meses por tratamento

21 de Novembro de 2017 | por Público
Alcoólicos esperam mais de dois meses por tratamento

Depois de assumida a dependência e tomada a difícil decisão de iniciar um tratamento, um alcoólico pode ter de esperar meses antes de ingressar numa Unidade de Alcoologia. Na Unidade de Desabituação do Norte, o tempo médio de espera para internamento foi de 67 dias, entre Janeiro e Setembro deste ano. Já na Unidade de Alcoologia de Lisboa, onde 15 das 25 camas estão disponíveis há meses, os utentes esperaram em média 57 dias.

“É muito tempo. O alcoólico, como o toxicodependente, tem uma maleabilidade emocional muito grande e se no momento em que decide iniciar tratamento não obtém uma resposta atempada, quando finalmente o chamam pode já não estar em maré de sim” alerta Manuel Cardoso, o subdirector-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD).

O aumento das listas de espera é generalizado. Na resposta por escrito do Governo ao grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, que perguntava pela existência de esperas para o início de tratamento por dependência de álcool que chegavam aos seis meses, o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, explica ainda que na Unidade de Alcoologia (UA) do Centro os utentes esperaram em média 39 dias para iniciarem tratamento nos primeiros noves meses deste ano. Já nas Unidades de Desabituação (UD) de Lisboa e Coimbra o tempo médio de espera foi de 35 dias. A excepção foi o Algarve, em cuja UD os utentes não tiveram que esperar em média mais do que nove dias.

Porque se trata de valores médios não é difícil concluir que, na prática, um alcoólico em busca de tratamento pode na realidade ter de esperar bem mais que os 67 dias apontados como tempo médio de espera na UD do Norte. E a situação, segundo Manuel Cardoso, há-de estar pior: “Nada aconteceu entretanto para que as coisas melhorassem.”

"É um bocadinho mais de meio médico"

A falta de médicos, enfermeiros e auxiliares é uma das principais razões. Na Unidade de Alcoologia de Lisboa, 15 das 25 camas disponíveis estão vazias desde o início do ano passado, apesar de haver utentes à espera de tratamento. Em Julho, adiantou ao PÚBLICO a coordenadora daquela unidade, Ana Croca, a lista de espera era de três meses. Agora, “varia entre o mês e meio e os dois meses, de acordo com o número de técnicos que estão a trabalhar”.

A recuperação deu-se porque a saída do médico que estava no internamento foi entretanto parcialmente colmatada com a contratação de um médico reformado que trabalha 20 horas, em vez das habituais 35. “É um bocadinho mais de meio médico”, ironiza Ana Croca, para confirmar que, por isso e porque existem apenas oito enfermeiros, um dos quais está de baixa médica, não é possível alargar a taxa de ocupação até aos 100%.

“Antes da extinção do IDT [Instituto da Droga e da Toxicodependência], o tempo de espera era de 15 dias no máximo, em cada uma das diferentes unidades. Às vezes esperava-se uma semana, para garantir que a vontade de iniciar tratamento estava consolidada, mas nunca mais de duas”, recua Manuel Cardoso, admitindo embora que “o cenário de austeridade e de crise por que passámos” possa ter contribuído para a actual escassez de profissionais tanto como as indefinições motivadas pela reforma operada nos serviços.

IDT aglutinava toda a área dos comportamentos aditivos

Antes de ser extinto, em 2012, o IDT aglutinava toda a área dos comportamentos aditivos, desde o planeamento ao tratamento. Naquela data, a reboque da poupança imposta pela troika, o Governo substituiu aquele instituto público por uma direcção-geral, o SICAD, e transferiu os seus profissionais para as administrações regionais de saúde (ARS) que passaram a tutelar os tratamentos na área das drogas e demais dependências.

Esta solução terá levado a uma fragmentação dos serviços, com consequências na resposta dada aos dependentes. No Porto, por exemplo, a necessidade de optimização dos recursos levou a que a Unidade de Alcoologia acompanhasse apenas os doentes de risco moderado em regime de ambulatório. Os casos mais agudos passaram para a UD, onde se desintoxicam também os dependentes de substâncias ilícitas.

Este enfraquecimento da capacidade de resposta aos utentes teve há dias um novo desenvolvimento quando os 13 coordenadores dos diferentes serviços na região Norte se demitiram dos cargos. Antes disso, já o actual Governo se comprometera a avaliar as consequências da extinção do IDT e a estudar a possibilidade de criação de uma nova estrutura, no quadro da administração pública, capaz de (re)aglutinar todas as competências na área dos comportamentos aditivos. “Faz todo o sentido que voltemos a ter uma directriz e uma coordenação nacional”, concorda Ana Croca.

Agravamento dos consumos de risco

No caso do álcool, que é a substância psicoactiva mais consumida em Portugal, o subdirector-geral do SICAD aponta um agravamento dos consumos de risco nos adultos e, principalmente, nas mulheres. “A percentagem de mulheres com padrões de consumo mais nocivo aumentou e essa é uma área em que precisamos de intervir”, refere, ancorando-se em estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), segundo os quais “as mulheres, ao contrário dos homens, tendem a aumentar o consumo de álcool à medida que ascendem na sua posição sócio-económica”.

IV Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoactivas na População Geral para os anos 2016/17 mostra, de resto, um aumento do consumo problemático de álcool, fixando em 12,6% a população com um consumo de risco médio e em 3,6% a percentagem de consumidores de risco elevado ou mesmo dependentes alcoólicos.

Por isso, e porque 13,1% das mortes registadas no ano passado foram motivadas por problemas e doenças derivados do consumo excessivo de álcool, Cardoso lamenta que a prometida rede de referenciação para os problemas ligados ao álcool não tenha avançado.

“Para alguém com um problema de dependência de álcool é difícil ir a um antigo CAT [Centro de Apoio da Toxicodependentes) e o que se previa era que a detecção precoce dos consumos de risco fosse feita nos cuidados de saúde primários, pelo médico de família, a quem competiria depois encaminhar o doente para os Centros de Respostas Integradas. Infelizmente, não conseguimos dar seguimento a essa grande mais-valia nomeadamente por causa da instabilidade de governança nos serviços.” 

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