Foi há 30 anos que o FC Porto se tornou intercontinental em Tóquio

13 de Dezembro de 2017 | por Público
Foi há 30 anos que o FC Porto se tornou intercontinental em Tóquio

Foi um daqueles jogos que só se houver uma doença que implique uma grande perda de memória se poderá esquecer.

Tivemos um mês a preparar esse jogo antes de partir para Tóquio, algo inédito nas nossas vidas. Treinávamos pelas 7h da manhã, almoçávamos às 10h, voltávamos a treinar às 15h e jantávamos às 17h. Tudo por causa do jet lag. Eram nove horas de diferença. Em Portugal seriam três horas da manhã quando em Tóquio era meio-dia. Viajámos para o Japão cinco dias antes da final para nos adaptarmos.

Apesar de todos os preparativos, aconteceu algo surpreendente, que foi nevar durante o jogo. Fomos todos apanhados desprevenidos. Aconteceu naquele dia, numa cidade onde raramente neva. E foi um tal nevão que cobriu o relvado todo. Por baixo ainda havia água, geladíssima.

Antes do jogo, nós aquecemos no lado esquerdo de quem saía do balneário e o Peñarol do lado direito. Com o nevão, acabámos por terminar o aquecimento no interior do estádio, onde havia uma sala ampla, sem divisões com as equipas uma de cada lado. Aí começou logo o jogo. Logo nesse aquecimento. Olhávamos para eles e eles para nós e trocávamos provocações e insultos e faltou muito pouco para não haver porrada logo ali.

Assim que meti os meus pézinhos dentro do campo, os meus dedos dos pés encolheram-se todos com o frio, danado.

Mal a partida começou percebemos que aquilo ali não era para jogar. Era para tirar a bola de perto da nossa área de qualquer maneira, pelo chão, pelo ar, de biqueiro. Não podia haver jogadas combinadas, não havia táctica, nem dribles. Era pontapé para a frente.

Depois, no prolongamento, lembro-me muito bem do golo da vitória. O Madjer tirou o Trasante da frente e chutou logo para a baliza. Eu estava longe, a ver a bola a bater no chão e a dirigir-se devagarinho para a baliza e de lá de trás gritava e peço desculpa pela expressão: ‘entra, entra filha da puta.' E a bola entrou mesmo e ganhámos o jogo.

Ao intervalo da partida, estávamos a ganhar só por 1-0, eu queria beber chá, mas as mãos tremiam-me tanto, tanto, que quando chegava com a chávena à boca já estava praticamente vazia. Tinha de pedir para me atarem os atacadores das botas porque não conseguia sozinho.

O balneário parecia um acampamento. Montes de algodão com álcool de um lado e de outro, que fazíamos arder com um isqueiro para aquecer as mãos, mesmo com elas em cima do lume. Depois do jogo estive meia-hora com o corpo debaixo de água a ferver e ele não aquecia. Era impressionante. Só quem esteve naquele jogo é que pode fazer uma ideia.

Conseguimos o mais importante que era trazer o caneco para Portugal. Foi uma jornada histórica para nós e para o clube.

Nunca se chegou a ponderar o adiamento do jogo. Ele tinha de se realizar de qualquer maneira, o que não deveria acontecer em circunstâncias normais. Aquilo não foi jogar futebol, foi lutar. O que foi uma pena, porque com um terreno seco, face à qualidade técnica das equipas, teria sido uma grande partida.

Quem fosse considerado o melhor do jogo ganhava um Toyota. Foi o Madjer, que acabou por doar o carro ao clube que o guardou como recordação.

O regresso foi arrepiante. Andámos nove horas para a frente em relação a Portugal e depois andámos outras tantas para trás. Demorei cerca de um mês a recuperar do jet lag. Acordava às cinco da manhã com fome, tinha sono às cinco da tarde… Andámos mesmo abananados algum tempo.

Para mim, com 31 anos, foi uma fase final de carreira incrível. Mas não usufrui nada em termos de melhorar contratos. Mas em termos de ego… Muito poucos jogadores se podem gabar de serem campeões do mundo. No mesmo ano ganhámos a Taça dos Campeões Europeus, a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental. É qualquer coisa de fantástico em tão pouco espaço de tempo.

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