Arquitecto Manuel Aires Mateus distinguido com o Prémio Pessoa 2017

15 de Dezembro de 2017 | via publico.pt
Arquitecto Manuel Aires Mateus distinguido com o Prémio Pessoa 2017

O arquitecto Manuel Aires Mateus, 54 anos, é o vencedor do Prémio Pessoa 2017. "A sua arquitectura é moderna, abstracta e contemporânea", justificou o júri, que entre os seus membros conta com o arquitecto Eduardo Souto de Moura. "A construção de formas e volumes é feita com um carácter inovador, por subtracção de matéria, esculpindo vazios, contrariando assim o sentido clássico do projectar", acrescenta ainda a acta do júri.

Das suas obras em Portugal, o júri destacou a sede da EDP em Lisboa, "onde, com dois fragmentos paralelos, o arquitecto constrói uma praça virada a sulprotegida por brise-soleils, com grande efeito plástico."

Manuel Aires Mateus começou a sua carreira no atelier de Gonçalo Byrne – onde trabalhou entre 1983 a 1988 -, tendo depois fundado um atelier com o seu irmão Francisco. Mais tarde acabaram por ter cada um o seu próprio atelier – Manuel Aires Mateus mudou-se recentemente para um prédio na Rua Cecílio de Sousa – mas, como explicou numa grande entrevista ao PÚBLICO na altura da conclusão da sede da EDP, os dois continuam a assinar várias vezes em conjunto, principalmente nos trabalhos de maior dimensão. É o caso do projecto para Lausanne, em que a dupla ganhou o concurso para o Museu da Fotografia de Elysée e o Museu de Design e Arte Contemporânea, ultrapassando pelo caminho propostas de três prémios Pritzker.

Nos últimos anos, os seus projectos têm ganho uma maior dimensão, nomeadamente em Lisboa, com a inauguração da sede da EDP em 2015, e depois de ter vencido vários concursos de arquitectura no estrangeiro, o que lhe permitiu a internacionalização da sua obra. Desenhou a Faculdade de Arquitectura de Tournai, na Bélgica, ou o Centro de Criação Contemporânea Olivier Debré, em Tours, França.

Comentando ao PÚBLICO o prémio que agora lhe foi atribuído, Manuel Aires Mateus diz que o entende como uma distinção para “a condição da arquitectura portuguesa” e para uma linhagem que passa pelos arquitectos Álvaro Siza e Gonçalo Byrne, mas também por Eduardo Souto de Moura e Carrilho da Graça, dois autores já também distinguidos com o Prémio Pessoa, além de várias outras gerações que vêm dando sequência a esse património. E destaca o facto de o prémio, com a sua marca generalista e decidido por um júri de grande respeitabilidade, ter voltado a incidir sobre a arquitectura.

O arquitecto da nova sede da EDP em Lisboa faz questão de partilhar o prémio com o seu irmão Francisco, com quem tem desenvolvido alguns dos principais projectos – “trabalhamos sempre em conjunto, e quando um de nós ganha, ganhamos os dois”, nota –, e com o conjunto dos colaboradores do seu escritório, realçando que “a arquitectura é sempre um trabalho colectivo”.

E admite que este Prémio Pessoa vem responsabilizá-lo pessoalmente: “É uma responsabilidade séria: vai fazer-me trabalhar mais, e é um alento para esta que é uma profissão de resistência no nosso país”, diz. Aires Mateus refere ainda a existência de uma espécie de “pirâmide” das diferentes gerações no país, encabeçada pelos nomes que atrás referiu, e que continua a ser sustentada “por muitos arquitectos jovens que vão sendo também reconhecidos em Portugal e que têm hoje um percurso internacional também muito bom”.

Entre os trabalhos que o seu atelier tem actualmente em mãos, cita o Museu de Design de Lausanne, na Suíça, cuja obra deverá começar a ser construída na Primavera do próximo ano. Mas realça que os projectos que mais lhe interessam são as casas. “Pela escala, e pela relação muito estreita que implica com os clientes, as casas estão sempre mais próximas de nós e continuam a ser o corpo central do nosso trabalho”, diz.

Eduardo Souto de Moura, galardoado com o Prémio Pessoa em 1998, mostra-se "muito contente" com esta decisão. "É o reconhecimento da obra do Manuel Aires Mateus, mas também da disciplina da Arquitectura, que parece começar a passar novamente por um bom momento”, disse ao PÚBLICO o autor do Estádio Municipal de Braga, que vê também no prémio agora atribuído a Manuel Aires Mateus o reconhecimento de alguém que “já fez muito bem, e vai agora ser incentivado a continuar a trabalhar e a fazer ainda melhor”. 

Souto de Moura vê aqui o essencial do espírito do Prémio Pessoa, que é o de distinguir alguém a meio da carreira. Com este prémio, e com o seu reflexo público, Manuel Aires Mateus “pode ter acesso a mais trabalho, e melhores condições para continuar a fazer a sua arquitectura”, acrescenta Souto de Moura, acentuando a relevância que a sua obra já tem em Portugal mas também no estrangeiro, onde a arquitectura portuguesa tem tido mais reconhecimento nos últimos anos.

Se olharmos para a lista do Prémio Pessoa, que já leva 31 edições, podemos dizer que, grosso modo, de dez em dez anos o escolhido é um arquitecto. João Luís Carrilho da Graça, que recebeu o prémio em 2008, exactamente dez anos após Souto de Moura, está “contente” por ver de novo a arquitectura na lista e, em particular, aquela que é feita por Manuel Aires Mateus.

Salientando que parte da obra deste arquitecto é feita em parceria com o seu irmão Francisco, Carrilho da Graça, autor de projectos como o novo terminal de cruzeiros de Lisboa ou do Teatro de Poitier, França, salienta nos Aires Mateus a capacidade de lidar com as questões com que são confrontados na actualidade – as especificidades dos projectos e dos contextos a que eles se destinam – sem perder os referentes que são entendíveis e partilhados por todos: “Tal como [Álvaro] Siza há uns anos, o seu trabalho dá resposta aos problemas da arquitectura hoje sem perder de vista os valores e as referências universais.”

O prémio, uma iniciativa do jornal Expresso com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos, distingue uma personalidade portuguesa que tenha tido uma “intervenção particularmente relevante e inovadora na vida artística, literária ou científica” e tem um valor monetário de 60 mil euros.

Além de Souto Moura, o júri da 31ª edição foi constituído por Francisco Pinto Balsemão (presidente), Emídio Rui Vilar (vice-presidente), Ana Pinho, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Eduardo Souto de Moura, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião e Rui Vieira Nery. 

O vencedor da edição do ano passado foi Frederico Lourenço, responsável pela tradução a solo da Bíblia, a partir do grego antigo, também tradutor de Homero ou Eurípedes, e que é ainda ficcionista, ensaísta e poeta.

deixe-nos o seu comentário
voltar
em destaque
últimos podcasts
Entrevistas - 17 de Janeiro de 2018
GPS - 17 de Janeiro de 2018
Universo Paralelo - 17 de Janeiro de 2018
Blê Blê Blê - 17 de Janeiro de 2018
Pré Visão - 17 de Janeiro de 2018
os nossos ouvintes
powered by hojenet © Copyright Rádio Nova 2016 - Todos os direitos reservados