PGR investiga adopções na IURD e a acção do próprio Ministério Público

19 de Dezembro de 2017 | via publico.pt
PGR investiga adopções na IURD e a acção do próprio Ministério Público

O Ministério Público (MP) abriu uma investigação na sequência das notícias sobre alegadas irregularidades nas adopções de crianças por parte dos líderes da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

Em comunicado, o MP informa que foi instaurado um inquérito-crime para investigar os factos ocorridos e que o processo será dirigido pelo Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa (DIAP).

“Acresce que a matéria em questão está intrinsecamente ligada com processos concretos que correram termos na jurisdição da família e crianças, área de especial e relevante intervenção do Ministério Público”, lê-se ainda na nota enviada às redacções. Assim, a Procuradoria-Geral da República "determinou a abertura de um inquérito com vista a averiguar a eventual existência de procedimentos incorretos ou irregulares".

Este processo surge na sequência de uma investigação da TVI onde se diz que os netos do brasileiro Edir Macedo, que lidera IURD, terão sido roubados de um lar para crianças que o movimento religioso manteve em Lisboa durante os anos 1990. Depois disso, foram adoptados, de forma irregular, no Brasil.

Nesta investigação, que deu origem à série informativa “O Segredo dos Deuses”, alega-se ainda que vários menores entregues por famílias portuguesas com dificuldades financeira ao lar da IURD alimentaram durante anos uma rede internacional de adopções ilegais liderada por dirigentes daquele culto. A TVI diz assim que Edir Macedo "está envolvido nesta rede internacional de adopções ilegais de crianças, e que os seus próprios 'netos' são crianças roubadas do Lar Universal, uma instituição que à época fazia parte da obra social da igreja".

As crianças eram entregues directamente no lar, à margem dos tribunais, por famílias em dificuldades e acabavam no estrangeiro, adoptadas por bispos e pastores da igreja de forma irregular e sem direito de contraditório às famílias, adianta a investigação das jornalistas Alexandra Borges e Judite França.

Num dos episódios da série informativa conta-se a história de Fábio, uma das três crianças que terá sido ilegalmente adoptada por Edir Macedo. Fábio, tal como as outras duas, foi levada para o Brasil para ser entregue a Viviane Freitas, filha do líder da IURD, depois de ter sido adoptada pela secretária de Macedo. No entanto, a criança foi depois entregue a Romualdo Panceiro, bispo do movimento, que, através de documentos falsos troca o seu nome para Felipe. Depois de três anos de vida em comum, o rapaz é devolvido a Alice Andrade.

Com uma adolescência conturbada, Fábio fugiu de casa, mas aos 20 anos voltou à IURD, onde recebia salário, e era apresentado por Romualdo como um sucesso da IURD na sua reabilitação em Portugal. Mais tarde, em 2015, foi encontrado morto num quarto de hotel em Nova Iorque – a mãe adoptiva diz que se deslocou à cidade norte-americana para reconhecer o corpo e que a causa da morte foi overdose. Contudo, a IURD desmente e diz que a morte do jovem foi provocada por um ataque cardíaco.

Na semana passada, a IURD afirmou que as acusações de rapto e de um esquema de adopção ilegal de crianças portuguesas num lar em Lisboa são fruto de "uma campanha difamatória e mentirosa", acrescentando que "os seus membros, em Portugal e fora do país europeu, apresentarão inúmeras acções contra a TVI em Portugal e no exterior".

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