INEM não diz a que horas activou meios nem quando estes chegaram às vítimas

19 de Janeiro de 2018 | por Público
INEM não diz a que horas activou meios nem quando estes chegaram às vítimas

As horas do incêndio de Pedrógão Grande foram confusas, com pouca rede de telemóvel e de Internet e, por isso, os registos obrigatórios de cada meio de socorro do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) foram feitos à mão. Sete meses depois do incêndio, estes registos ainda não foram actualizados no sistema informático. Acresce que o INEM não diz a que horas activou cada meio, admite não saber a hora exacta a que "alguns" meios chegaram junto das vítimas e recusa ainda o acesso a documentos que o comprovariam, por estes alegadamente estarem em "segredo de justiça".

A actuação do INEM naqueles dias ainda está envolta numa nebulosa, sobretudo porque os registos obrigatórios foram sendo feitos em papel e ainda não foram transpostos para o sistema informático. Questionado pelo PÚBLICO sobre estes registos, o INEM confirma que "todas as ocorrências devem e têm de ser registadas no sistema informático dos CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) do INEM", mas que esta foi uma "situação particular" devido à "intensa actividade operacional" e que, por isso, "os registos foram sendo feitos manualmente ou em sistemas complementares, sendo oportunamente reposta a normalidade dos mesmos no sistema informático do INEM, situação que também é devidamente registada". 

Contudo, o incêndio aconteceu a 17 de Junho de 2017 e, sete meses depois, esse momento oportuno para a transposição para o sistema informático ainda não aconteceu. O INEM justifica a utilização deste tipo de registo pelo facto de no terreno os operacionais escolherem a forma que "consuma menos tempo possível". "Não é desejável como regra, mas acontece neste tipo de situações e continuará a acontecer sempre que tal signifique uma resposta mais célere e expedita", acrescenta o INEM, lembrando ainda as dificuldades provocadas pelas "falhas na rede de comunicações". 

Uma situação excepcional e que não permite o escrutínio, também, por parte daqueles que estavam ao serviço e que revelaram ao programa Sexta às 9, da RTP, a existência de dificuldades no accionamento e a discrepância na activação de meios. 

Estas denúncias de técnicos coincidem com queixas de familiares das vítimas de que as ambulâncias chegaram tardiamente e sem coordenação. Para clarificar as dúvidas que têm vindo a público, e que o instituto considera tentativas de "denegrir o bom nome e o profissionalismo de responsáveis do INEM", o PÚBLICO pediu em detalhe as horas de activação e de chegada ao teatro de operações de cada meio, mas as respostas surgem apenas com números globais. O INEM refere que até às 22h foram accionados dez meios próprios (entre eles dois helicópteros), várias ambulâncias dos corpos de bombeiros e da Cruz Vermelha, e que posteriormente foram accionados mais sete meios de emergência, sem nunca referir a hora a que cada ambulância ou helicóptero foi accionado.

Mais, o INEM também não informa sobre o momento em que estes meios chegaram ao terreno ou estiveram em operação. "Em alguns casos, o INEM não dispõe de informação precisa sobre a hora exacta a que os meios chegaram junto das vítimas", lê-se. Sobre este assunto, o INEM recorda ainda as dificuldades nas comunicações que acabaram por "condicionar negativamente", impedindo o registo. 

Nos últimos tempos, têm surgido várias dúvidas, sobretudo depois do relatório do professor Domingos Xavier Viegas em que foram identificadas situações em que terá falhado o socorro às vítimas. As queixas e as dúvidas sobre o INEM levaram o Ministério Público a alargar o âmbito da investigação. A "colaboração" com o Ministério Público é assumida pelo INEM, que recusou a consulta de vários documentos, por estes estarem em "segredo de justiça".

Entretanto, as ordens dos enfermeiros e dos médicos pediram esclarecimentos sobre o INEM. A Ordem dos Enfermeiros fez chegar uma carta às mais diversas entidades, incluindo ao primeiro-ministro. O PÚBLICO questionou nas últimas semanas o gabinete de António Costa sobre se tinha feito alguma diligência no sentido de clarificar a actuação do INEM ou se tinha recebido mais queixas sobre este assunto, mas não recebeu qualquer resposta às perguntas, sendo apenas dito que "não há nada a comentar".

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