“Quando se está bem acompanhado, não se muda de companhia”

23 de Janeiro de 2018 | por Público
“Quando se está bem acompanhado, não se muda de companhia”

António Costa acredita que deitou abaixo um dogma da democracia portuguesa ao conseguir constituir Governo com o PCP e com o BE e não quer voltar atrás e dar razão àqueles que duvidavam que esse dogma de que a esquerda não se podia unir, não pudesse cair. Na primeira intervenção depois da eleição de Rui Rio à frente do PSD, o primeiro-ministro quis serenar o partido e os parceiros de esquerdae deixou a clarificação da estratégia que pretende seguir: “Quando se está bem acompanhado, não se muda de companhia”, disse.

Com a sala cheia de deputados e militantes do PS, no jantar das jornadas parlamentares do partido, António Costa garantiu que vai dar continuidade às políticas que iniciou com PCP e BE e que não quer mudar de parceiros. “Quando nos perguntam ‘o que vão fazer?’. Quando se está no bom caminho, só há uma coisa a fazer que é não mudar de caminho. Quando se está bem acompanhado, não se muda de companhia. E por isso a primeira coisa a fazer é seguir o caminho que iniciámos há dois anos com a companhia que temos há dois anos”, garantiu debaixo de uma salva de palmas.

Esta era uma mensagem que Costa trazia preparada, depois de vários socialistas terem revelado nos últimos dias que não querem ver o primeiro-ministro virar-se para o PSD, deixando de lado PCP, BE e PEV, depois da eleições de Rui Rio. Terá sido para marcar o mote da mensagem política daqui para a frente, e sobretudo para marcar os limites da relação com o novo líder do PSD, que começou logo por elogiar os resultados deste Governo. “Se estamos genericamente satisfeitos com os resultados que temos tido, isso deve-se às boas politicas que esta maioria introduziu e porque esta maioria foi capaz de se constituir. Sem esta maioria não tínhamos estas políticas e não tínhamos estes resultados”, disse. “Temos boas razões para continuar neste caminho, porque o caminho não está acabado. Temos muito para fazer”, defendeu.

Desta vez, e ao contrário de outras vezes, Costa não se referiu ao Governo como um “Governo PS” com o apoio da esquerda, mas referiu-se sempre como a “maioria”. E as palavras contam, sobretudo nesta altura em que muitos lhe pediam uma palavra para garantir que a “geringonça”, palavra que foi usada de modo depreciativo, mas que Costa gosta, é para continuar.

“Perguntavam, ‘vai-se unir aquela esquerda toda e vão conseguir reduzir o défice?’ A esquerda foi capaz de se unir e tivemos o défice mais baixo da democracia. ‘Então e a esquerda une-se e isso não vai afastar os empresários?’ O investimento privado é o mais alto dos últimos anos”, defendeu.

Não terminou no entanto sem lembrar os riscos que uma política diferente podem trazer. “Se a direita volta ao poder sonha com a competitividade à custa de baixos salários”, disse, para mais tarde deixar a garantia: “Não estamos satisfeitos, queremos ir mais longe. (…) Por isso é preciso prosseguir estas políticas”.

O enfoque de Costa foi sobretudo na defesa da solução de Governo para clarificar o que poderia estar em dúvida depois da eleição de Rio, com quem manteve uma relação de proximidade quando eram presidentes das duas maiores câmaras do país. E se poderia esperar-se que o chefe do Governo iria às jornadas parlamentares pedir o apoio de todos os partidos para algumas matérias que estão no Parlamento, acabou por fazê-lo, mas de uma forma muito própria.

Sobretudo quando falou da descentralização de competências para as autarquias, um conjunto de “23 diplomas” que continuam no Parlamento ainda sem acordo. “A determinação que temos é que esta sessão legislativa seja aquela em que de uma vez por todas os partidos políticos que nas campanhas para as eleições autárquicas percorrem o país todo a dizer que não há nada melhor do que os autarcas dos municípios e que os autarcas das freguesias, honrem a sua palavra e deem agora mais competências às freguesias e municípios”, defendeu.

O mesmo para a reforma da floresta que, frisou, tem de ser já posta em prática porque os incêndios não se apagam só quando já lavram, “mas também agora quando não há chamas”.

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