Marcelo deixou de trabalhar na televisão e nunca mais saiu do ar

24 de Janeiro de 2018 | por Público
Marcelo deixou de trabalhar na televisão e nunca mais saiu do ar

177 horas, sete minutos e 48 segundos. Entre Janeiro de 2016 e Dezembro de 2017, Marcelo Rebelo de Sousa foi o protagonista da informação nos canais generalistas (RTP 1 e 2, SIC e TVI), com mais 16 horas que o primeiro-ministro, o segundo lugar neste ranking elaborado mensalmente pela Marktest. Se as notícias em que foi interveniente passassem consecutivamente, seriam precisos sete dias completos, mais nove horas, cinco minutos e 29 segundos para as ver.

Só no ano passado, o segundo do seu mandato, o Presidente da República ocupou 88 horas em cerca de duas mil notícias, mais do que, em 2007, alcançaram o Presidente Cavaco Silva e o primeiro-ministro José Sócrates juntos. Nesse ano, Sócrates interveio na primeira pessoa em 1195 notícias que tiveram mais de 50 horas de duração, enquanto Cavaco Silva foi o protagonista de 682 notícias de 26 horas de duração.

“Estes números documentam bem que Marcelo Rebelo de Sousa se tornou o centro da vida política”, analisa Felisbela Lopes, professora da Universidade do Minho doutorada em Informação Televisiva. “O Presidente presta uma atenção colossal aos media, conhece muito bem as lógicas jornalísticas, domina os processos de agendamento dos temas e tem uma enorme eficácia na construção de uma mensagem mediática, quer no conteúdo, quer na forma”, sublinha. “Seja no abraço ao bombeiro ou no conforto à idosa, Marcelo sabe que há sempre uma câmara, um olhar de jornalista. Não é que não seja genuíno. A encenação já se converteu no real”, acrescenta.

Os números são impressionantes. Em 24 meses, Marcelo foi o político com maior tempo de antena em 15 meses, sempre seguido por António Costa. Este, por seu lado, passou-lhe à frente oito vezes, seis das quais o Presidente ficou em segundo. Só num mês esteve em 6º lugar – em Setembro passado, quando decorreu a campanha eleitoral autárquica, numa altura em que os protagonistas foram os líderes dos cinco principais partidos – e noutro mês, Fevereiro de 2016, não apareceu entre os 10 primeiros. Isso porque depois da eleição, faz dois anos esta quarta-feira, saiu de cena até à tomada de posse, a 9 de Março.

Marcelo deixou de ser comentador televisivo e nunca mais saiu do ar. Mas isso não acontece apenas pela forma como gere a sua agenda, com várias aparições públicas por dia - o que acontece com frequência – ou porque tem dons de flautista de Hamelin que leva os jornalistas atrás. “Ele beneficia de uma conjuntura política muito particular, de um contexto muito favorável a esse destaque”, defende Felisbela Lopes.

A investigadora destaca o facto de o chefe de Estado ter sido eleito apenas dois meses após a tomada de posse de um governo “minoritário e precário, apoiado por partidos sem coesão entre si” e de o principal partido da oposição, o PSD, ter entrado desde então em crise, primeiro fazendo “uma oposição frouxa” e mesmo agora, que escolheu um novo líder, surgindo com uma imagem de “instabilidade”. “O novo líder foi eleito e já parece que está a sair, as notícias dão sobretudo conta de divisões internas e nem uma boa sondagem conseguiu ter”, analisa a professora. Nesse contexto, acrescenta, “o Presidente da República beneficia de uma imagem suprapartidária”.

A popularidade que Marcelo Rebelo de Sousa mantém dá conta dessa supremacia face ao restante panorama político. Depois de ter sido eleito com 52% dos votos, a percepção positiva da sua actuação, medida no barómetro da Eurosondagem para a SIC e o Expresso, foi subindo e mantém-se relativamente estável entre os 70 e os 75%. Muito acima do segundo líder mais popular nesse barómetro, António Costa, cuja avaliação positiva ainda não alcançou a fasquia dos 50%.

Essa percepção positiva também encontra fundamento na forma como o Presidente é “activo em várias frentes”, analisa Felisbela Lopes: “Ele descentralizou a sua acção política, preocupou-se como o chamado ‘resto do país’ além de Lisboa e Porto, mas também chamou a periferia para o centro em termos de conteúdo, ao dar relevo aos problemas dos sem-abrigo, dos idosos”. Por outro lado, a sua acção não foi inócua. “Teve um papel decisivo nos principais acontecimentos do país. Nos dossiers da banca/CGD, de Tancos e dos incêndios, a acção do Presidente tornou-se decisiva para o desenrolar dos acontecimentos, anota a especialista em comunicação.

E fê-lo, acrescenta ainda, “envolvendo os acontecimentos numa enorme afectividade, criando uma espécie de ‘pensamento do ventre’, para usar a expressão de Michel Maffesoli, que permitiu reconquistar o optimismo perdido”. Mas não fez nada sozinho, salienta: “António Costa também ajudou Marcelo a tornar os afectos o elo de união dos portugueses, ambos beneficiam um do outro”.

Felisbela Lopes alerta, no entanto, para o ponto fraco deste mediatismo presidencial: “Marcelo aparece sempre como um homem sozinho, é sempre ele que fala. Devia ter mais capacidade de puxar os que estão ao seu lado para junto de si e pô-los a falar. É verdade que puxou muita gente e muitas questões para o centro, mas nesta cidadania de baixa intensidade em que vivemos, falta-lhe puxar os actores para serem parte do processo de decisão.”

deixe-nos o seu comentário
voltar
em destaque
últimos podcasts
GPS - 19 de Fevereiro de 2018
Universo Paralelo - 19 de Fevereiro de 2018
A Bola é nossa - 19 de Fevereiro de 2018
Pré Visão - 19 de Fevereiro de 2018
Blê Blê Blê - 19 de Fevereiro de 2018
os nossos ouvintes
powered by hojenet © Copyright Rádio Nova 2016 - Todos os direitos reservados