Morreu o homem que nos mudou a casa

29 de Janeiro de 2018 | por Público
Morreu o homem que nos mudou a casa

O fundador da Ikea, Ingvar Kamprad, morreu este sábado, aos 91 anos. De acordo com um comunicado do grupo, o empresário morreu “pacificamente em casa” e rodeado pelos seus próximos, na região sueca de Smaland. É aqui que fica Almhult, pequena localidade onde nasceu, rodeado por florestas, e a partir da qual lançou o seu negócio global de mobiliário. O grupo sublinha que foi “um dos grandes empresários do século XX”. Apresentado como “trabalhador e teimoso”, tal como muitos dos seus conterrâneos, já estava afastado dos negócios do grupo, apesar de funcionar como conselheiro. E, apesar de estar incluído na lista dos homens mais ricos do mundo, era visto como uma pessoa frugal – dele conta-se a história de que, quando esteve em Portugal para a abertura da primeira loja no país, em 2004, foi de autocarro de Lisboa para Alfragide, também para testar os acessos rodoviários.

A veia de empreendedor começou a revelar-se desde cedo, com a sua biografia oficial a dizer que aos cinco anos já vendia fósforos aos vizinhos. Depois de se expandir para a venda de produtos como sementes e canetas, aos 17 anos usou o dinheiro que o pai lhe deu por terminar o secundário para abrir uma empresa, com um nome formado por quatro letras: Ikea. Esta não começou imediatamente a produzir mobília desmontada. Aliás, embora a Ikea (que juntou as iniciais do nome do empresário e da quinta e da paróquia onde cresceu, Elmtaryd e Agunnaryd) tenha sido criada em 1943, só começou a vender mobiliário em 1948, onde se concentrou após verificar o sucesso das vendas. Antes disso, a aposta incidia em produtos como molduras, relógios e meias de nylon. Em 1945 deu os primeiros passos na logística, com anúncios nos jornais locais e venda por catálogo, despachando os produtos através da carrinha do leite, que os levava até ao comboio.

Só em 1956, mais de uma década depois de ter lançado a empresa, é que Ingvar Kamprad viu um dos seus funcionários a tirar as pernas de uma mesa para que esta pudesse caber no carro de um cliente. A partir desse momento, todo o conceito mudou: pensar a concepção de mobiliário montável pelo próprio cliente, num processo de self-serviceque permitiu baixar os preços (tal como as compras na Polónia nos anos 60, ou, mais recentemente, os efeitos de escala e a China).

Em 1958 abriu a primeira loja (até então a principal aposta era na venda por catálogo) em Almhult, a pequena localidade rodeada de floresta que o viu nascer, e que hoje é um dos centros nevrálgicos do grupo, com um museu, designers e os estúdios onde são produzidos os catálogos para todo o mundo. Esta é a sua grande ferramenta de marketing e publicidade, sendo comum dizer-se que os catálogos da Ikea são mais lidos do que a Bíblia.

Actualmente, o grupo conta com 412 lojas espalhadas por 49 países (apresenta-se como o maior retalhista de mobiliário e decoração do mundo, além de também deter fábricas), seja por via da própria Ikea (responsável pela maioria da lojas e da expansão internacional), seja através da sua rede de parceiros no regime de franchising da marca. Ao todo, é responsável por cerca de 190 mil postos de trabalho. Quase 14 anos depois de ter entrado em Portugal, (até 2004, muitos portugueses iam as lojas da Ikea em Espanha), o grupo detém cinco lojas, a última das quais foi aberta em Loulé em Março do ano passado, incluindo-se assim no último pacote de expansão orgânica da Ikea.

Pai de quatro filhos (uma rapariga e três rapazes, estes últimos filhos de Margaretha Stennert, com quem se casou em 1963), o homem que revolucionou o sector do mobiliário e decoração, democratizando produtos com design, deixa referências como as estantes Billy e as mesas Lack e um verdadeiro império global com vendas de 34 mil milhões de euros e resultados líquidos de 2,5 mil milhões de euros. 

Actualmente, o grupo (no qual os filhos não têm cargos de relevo ao nível da gestão) está a reposicionar-se, com uma estratégia onde se incluem lojas mais pequenas nos centros urbanos, uma maior aposta na Internet e pontos de encomenda e de recolha de produtos. 

Da sua história também fazem parte episódios mais sombrios, como a atracção pelo nazismo, na década de 40 (ou seja, quando estava a lançar a Ikea), algo que só foi revelado em 1994. Nesse ano, um jornal sueco, o Expressen, noticiou as suas ligações ao líder fascista, Per Engdahl, e ao Novo Movimento Sueco. Ingvar Kamprad admitiu então os factos, tendo enviado uma carta a todos os trabalhadores do grupo onde afirmava que essa era uma parte da sua vida da qual se arrependia “amargamente”. Uma justificação dada pelo empresário foi a influência dos seus avós maternos, emigrantes alemães que apoiavam Adolf Hitler.

Anos mais tarde, em 2011, uma investigação da televisão sueca Sveriges ligou Kamprad a vários grupos nazis, com destaque para o Partido Nacional-Socialista Alemão (NSDAP) de Hitler. Nada disto acabou por afectar a imagem da empresa que criou.

Outra questão tem sido uma certa opacidade do grupo (nunca enveredou pelo mercado de capitais) e o pagamento de impostos. Aliás, embora a Ikea esteja muito associada à Suécia, tanto o empresário como a empresa deixaram o país devido a ganhos fiscais. Em 1978, dois anos depois de ter escrito o documento que marcou a cultura da empresa, o Testamento de um comerciante de mobiliário (onde sublinha o combate contra o desperdício), Kamprad e a sua família mudaram-se para a Suíça. Já o grupo está espalhado entre a Holanda e o Liechtenstein, com uma fundação no topo da pirâmide. Recentemente, a Comissão Europeia anunciou que estava a investigar se a Holanda tinha dado um tratamento especial ao grupo em termos de impostos.

Quanto a Kamprad, acabou por voltar para o seu país de origem em 2014, três anos após a morte da sua mulher (e quase 40 anos depois de ter optado por viver no estrangeiro). Uma das suas últimas aparições públicas foi em 2012, quando surgiu em Almhult a saudar os primeiros clientes da nova loja – e que substituiu a que abrira em 1958. “Tenho muito trabalho para fazer, não tenho tempo para morrer”, dizia Kamprad em 2011, revelando-se um vendedor e empreendedor até ao fim.  

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