Testes a emissões de gases de carros também envolveram cobaias humanas

29 de Janeiro de 2018 | por Publico
Testes a emissões de gases de carros também envolveram cobaias humanas

O instituto financiado por três fabricantes de carros – Volkswagen, BMW e Daimler (detentora da marca Mercedes-Benz) – que recorreu a macacos para fazer testes laboratoriais das emissões de automóveis a gasóleo também usou seres humanos como cobaias. A imprensa alemã dá como certo o recurso a cobaias humanas, e relata com detalhes, a realização de testes em 2016, numa clínica em Aachen, envolvendo 25 jovens saudáveis.

A Alemanha segue em crescente estado de choque as informações que estão a ser publicadas e a imprensa online germânica é o espelho dessa sensação de escândalo, que já afectava a indústria automóvel alemã desde o caso das fraudes na medição de emissões de carros a gasóleo, que ficou para a história como o Dieselgate.

  

Desde Berlim, o porta-voz da chanceler Angela Merkel foi taxativo na condenação. “Estes testes com macacos ou pessoas não têm qualquer justificação no plano ético”, disse Steffan Seibert, numa conferência de imprensa cujo vídeo foi partilhado pelo próprio no Twitter. 

Os primeiros detalhes sobre o uso de macacos surgiram na semana passada dos Estados Unidos, num artigo do New York Times, ao passo que as informações sobre o uso de cobaias humanas foram publicadas no domingo por um diário alemão, o Stuttgarter Zeitung, de Estugarda, onde fica a sede da Daimler AG, Mercedes e Porsche. Menos de 24 horas depois, toda a imprensa alemã faz eco das experiências com humanos – algo que a ministra do Ambiente da Alemanha, Barbara Hendricks classifica como “abominável”.

Segundo a edição online da revista Spiegel, em 2016, 25 jovens saudáveis foram usados em testes levados a cabo numa clínica de Aachen, cidade da Renânia do Norte-Vestefália, a uma hora de distância de Colónia e próxima das fronteiras com a Bélgica e com a Holanda. Os ensaios envolveram dióxido de azoto (NO2), um poluente que resulta em grande parte da combustão do gasóleo, mas também de fábricas e outros equipamentos. 

Respirar com grandes concentrações de dióxido de azoto pode irritar as vias respiratórias, mesmo se a exposição for curta. Há o risco de agravamento de doenças crónicas, em especial a asma, de uma forma que exija o internamento ou, pelo menos atendimento de emergência, diz uma brochura de informações básicas da Agência de Protecção Ambiental dos Estados Unidos. O NO2 reage com outros químicos na atmosfera para formar partículas em suspensão e ozono – e ambos são prejudiciais quando inalados. Se interagir com água, oxigénio e outros químicos, pode gerar chuva ácida.

Os ensaios realizados em 2016 implicaram que o painel de cobaias humanas inalasse N02 “durante várias horas, em diferentes concentrações”. Em seguida, foram “sujeitos a exames médicos”. No final, acrescenta a Spiegel,“não foi possível chegar a qualquer relação conclusiva”.

Estes testes foram levados a cabo pelo Grupo Europeu de Investigação Ambiental e de Saúde no Sector dos Transportes (EUGT, na sigla oficial alemã), um organismo inteiramente financiado pela Volkswagen, Daimler e BMW, fundado em conjunto com a Bosch (que abandonou a entidade em 2013). O EUGT foi dissolvido em 2017.

“Estes ensaios, sejam eles feitos em macacos ou humanos, suscitam muitas questões críticas para quem os organizou”, declarou Steffan Siebert, porta-voz do Governo federal alemão. “Não são apenas questões éticas que deveriam merecer resposta imediata das empresas envolvidas, mas também saber que objectivo tinham afinal essas empresas para os levar a cabo”, acrescentou, em tom crítico. Lembrou que a tendência da indústria automóvel tem sido a de diminuir as emissões em nome do ambiente, algo para o qual nunca necessitaram de fazer testes em animais ou humanos.

Na quinta-feira, o jornal norte-americano The New York Times tinha noticiado testes feitos nos EUA, no estado do Novo México, que envolveram macacos. Uma informação que gerou desde logo uma chuva de críticas, agora reforçada pelas últimas revelações.

Desde Estugarda, o grupo Daimler distanciou-se destes ensaios laboratoriais, condenando “veementemente” tais exames. Um porta-voz ouvido pelo diário alemão que trouxe a público o uso de cobaias humanas garantiu ainda que os testes de Aachen com jovens “contradizem os valores e princípios éticos” do grupo, responsável por uma das principais marcas alemãs na indústria automóvel, a Mercedes-Benz.

Em Wolfsburgo, sede da Volkswagen, o chairman (presidente) do grupo exigiu a abertura imediata de um inquérito para apurar responsabilidades. "Em nome de todo o conselho de administração, condeno e rejeito estas práticas", declarou Hans Dieter Pötsch, o austríaco que preside também à Porsche, num comunicado publicado no site da Volkswagen. Exige ainda um "esclarecimento cabal e completo" dos ensaios, cujo objectivo seria avaliar se as emissões contêm elementos cancerígenos e se constituem ameaça para a saúde pública

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