Bem-vindos ao Dino Parque: aqui estão os dinossauros que já viveram em Portugal

09 de Fevereiro de 2018 | por Público
Bem-vindos ao Dino Parque: aqui estão os dinossauros que já viveram em Portugal

Os dinossauros estão à solta no pinhal dos Camarnais, na Lourinhã. Sim, são uns dinossauros especiais e estamos em 2018. As dimensões do maior metem respeito até ao lado dos pinheiros: tem cerca de 30 metros de comprimento, um pescoço longo e quatro patas maiores do que nós. Mas até tem um ar simpático. Podemos fazer-lhe festinhas, andar por baixo dele e até tirar umas fotografias. É o Lourinhasaurus alenquerensis e, quando existia em carne e osso, podia atingir as 17 toneladas. Mas, este é um dos 120 modelos das mais de 70 espécies de animais do Dino Parque – Parque dos Dinossauros da Lourinhã, aberto a partir desta sexta-feira.

“Vai ser uma das estrelas do parque! É o maior modelo”, diz-nos Simão Mateus, paleontólogo e o director científico do parque, que anda por baixo dele. “No Jurássico Superior [há cerca de 150 milhões de anos] andava pela Lourinhã.” Portanto, estamos mesmo a viajar pelo Jurássico. “É durante esse período que se formaram os terrenos em que a Lourinhã actualmente está”, conta Simão Mateus. E avisa-nos que no parque tudo será feito com dinossauros. Em frente ao Lourinhasaurus estão mesas, como se estivéssemos num parque de merendas, e é para lá que se dirige. “Podemos até almoçar dinossauros”, diz confiante. “Não só galinha, que é um dinossauro evoluído, como teremos nuggets em forma de dinossauro.”

Continuemos o percurso. Afinal, esta é só uma das 18 espécies de animais do Jurássico (entre há  200 milhões a 145 milhões de anos) no parque. Nem precisamos de andar muito para Simão Mateus avisar: “Está ali o ícone da Lourinhã, o Lourinhanosaurus antunesi.” Apoia-se em duas pernas, é mais pequeno do que o Lourinhasaurus alenquerensis e está tão perto de nós que até nos apetece cumprimentar a sua mão com três dedos. Mas é preciso cuidado, ele usava-as para agarrar presas. E os dentes afiados não são um sorriso inocente, eram usados para cortar carne.

Baptizado com este nome em 1998 pelo paleontólogo Octávio Mateus, é o “dono” de um dos maiores ninhos de ovos de dinossauros do mundo do Jurássico. Foi em 1993 na praia de Paimogo (Lourinhã) que Isabel e Horácio Mateus, paleontólogos amadores (pais de Simão e Octávio Mateus), descobriram pedaços de cascas de dinossauros. “A minha irmã ficou com vontade de fazer chichi, escolheu um sítio e a minha mãe ajudou-a. É quando se baixa que viu uma casca”, recorda Simão Mateus. A descoberta foi anunciada em 1997. Nesse ninho havia mais de uma centena de ovos, assim como embriões. “Foi considerada uma das descobertas científicas do ano.”

É também nos anos 90 que a ideia do parque nasceu. “A minha mãe começou a pensar no primeiro parque museológico da Lourinhã quando estava no Jardim das Plantas [em Paris] ao lado da galeria dos dinossauros”, conta Simão Mateus. Depois, seguiram-se vários projectos. Um deles chegou a ser apadrinhado por José Mariano Gago, quando era ministro da Ciência e Tecnologia do governo de António Guterres.

Chegou-se então ao Dino Parque, com um financiamento inicial de 3,5 milhões de euros oriundos da empresa alemã Dinosaurier-Park International (que gere o Dino Parque de Münchehagen, na Alemanha, por exemplo) e de fundos comunitários. Tem cerca de 30 funcionários. O Museu da Lourinhã é o responsável pela parte científica e o município da Lourinhã concessionou os terrenos.

Fósseis originais no parque

Entretanto, Simão Mateus aponta para outro dinossauro. Tem um ar divertido e parece que nos olha fixamente. “Este é um grandalhão anão de três metros”, diz com mistério. Logo percebemos que há aqui uma história com milhões de anos. Em 1998, o alemão Holger Lüdtke descobriu os ossos numa pedreira na Alemanha. Mais tarde, quando Octávio Mateus foi a um congresso no Dino Parque de Münchehagen viu os ossos e participou na sua descrição. Acabou por baptizá-lo de Europasaurus holgeri. E por que era anão? No Jurássico Superior, toda a Europa era um arquipélago e, devido inexistência de recursos, os europassauros tiveram de se adaptar a tamanhos mais pequenos.

Depois, responsáveis do parque alemão acabaram por vir à Lourinhã e perceberam que este seria um bom sítio para um parque de dinossauros. “Há área, tem a presença de dinossauros e está próximo da capital”, frisa Simão Mateus. Foi onde se criou então o parque inspirado no alemão. Agora, há europassauros em parques da Alemanha e de Portugal.

O parque português entrou agora em acção. E há uma cena até mais “impiedosa”. Ao virar de uma esquina vemos um Allosaurus europaeus, o predador mais comum do Jurássico, e repleto de placas osteodermes (tem partes queratinosas e ósseas) a caçar um corpulento estegossauro, um herbívoro com mais de quatro toneladas. Aqui nem os seus bem visíveis espinhos no final da cauda lhe serviram de defesa. A ver este cenário estão três crias do alossauro. “Chamam-se RitaJoão Pedro, os nomes dos coordenadores de turno de loja”, ri-se Simão Mateus. “É uma brincadeira, porque no dia em que chegaram deixei-os montar os dinossauros.” Olha-os e, divertido, diz: “Espero que não nasçam mais...”

Mas o parque não é só sobre o Jurássico. Tem dez hectares e três quilómetros de percursos. Logo no início temos uma linha cronológica com eras e períodos geológicos. A escolha dos percursos é feita pelos visitantes numa rotunda com uma ilha no meio. É daqui que saem os quatro percursos: um da era Paleozóica (há 540 milhões e 250 milhões de anos), que tem os períodos Devónico, Carbónico e Pérmico; o segundo com o Triásico (há 250 milhões e 200 milhões de anos); o terceiro com o Jurássico; e o quarto com o Cretácico (há 145 milhões e 65 milhões de anos).

Depois, é só andar e observar répteis voadores, dinossauros com penas ou até, num cantinho, o Archaeopteryx. E, pode dizer-se, temos uma vista única para a história evolutiva, estamos no Jurássico e já avistamos o Cretácico. Quantas horas são necessárias para ver o parque? “Calculamos que três”, nota Simão Mateus.

Além do espaço para lanches, há sítios para escavar fósseis ou para pintar dinossauros. Há uma loja e restauração. Até aos três anos, a entrada é gratuita; até aos 12 anos o bilhete custa 9,5 euros; e a partir dos 13 anos é 12,5 euros. Depois, há visitas guiadas para escolas e grupos (mais de 25 pessoas) com descontos. “Esperamos cerca de 200 mil visitas por ano. Nesta altura, já temos 16.500 bilhetes [reservados] para alunos”, destaca Simão Mateus.

Depois, fala do espaço museológico do parque, logo depois da entrada. Neste espaço, há ilustrações e dinossauros que não estão à solta mas expostos como nos museus. Olha-se em volta e podemos encontrar algumas das descobertas mais importantes da Lourinhã: uma pegada original de um Torvosaurus; alguns dos famosos ovos do Lourinhanosaurus descobertos na praia de Paimogo; um ovo de crocodilo mais antigo do mundo (o Krokolithes dinophilus) encontrado na mesma praia; o braço direito do Zby atlanticus, um dinossauro herbívoro encontrado na Lourinhã; e réplicas e fósseis do Miragaia longicollum, um dinossauro com placas no dorso e espinhos na cauda. Estas peças vieram do Museu da Lourinhã, agora reestruturado. O parque torna-se assim uma extensão do museu.

“Em Portugal, somos dos poucos países com um mestrado em paleontologia”, diz Simão Mateus a olhar para o Laboratório de Paleontologia, mesmo em frente à exposição. Aqui “far-se-á” ciência. Num “placard” em frente ao laboratório estão alguns dos utensílios dos paleontólogos: as botas de biqueira de aço, martelos ou cinzéis. Octávio Mateus conhece-os bem. “Nasci num ninho de dinossauros”, diz a sorrir. “Como os meus pais andavam nisto, desde muito cedo que andava a escavar.” O seu primeiro achado de um dinossauro foi aos nove anos: era um dente de um Torvosaurus. Desde então já descobriu fósseis de vários dinossauros, em Portugal ou fora do país, classificou-os, descreveu-os e tornou-os famosos.

“Do ponto de vista pessoal e familiar, [o Dino Parque] é um sonho”, afirma de forma expressiva. “Também é uma satisfação ver que a ciência serve de motor da economia. E não é uma ciência qualquer, é a ciência portuguesa: expomos os nossos dinossauros. Fazíamos questão que o Dino Parque tivesse dinossauros de Portugal. Assim, contamos a nossa história.”

Uma porta de entrada na vila

O Dino Parque fica na aldeia da Abelheira, a seis quilómetros da vila da Lourinhã. E é fácil encontrá-lo. No cimo da entrada há logo um Supersaurus de pescoço longo, com cerca de 25 metros de comprimento, que mostra logo quem manda ali: os dinossauros.

Na vila não se deixou de dar as boas-vindas ao parque. Na montra da loja Pereira & Nobre, que vende materiais de construção e ferragens, há a figura de um dinossauro com quase um metro. Por baixo, vê-se um ninho com ovos e canecas, T-shirts e uma ilustração (tudo com dinossauros). “Quisemos também fazer a nossa parte, já que acreditamos no projecto”, diz Manuela Nobre, gestora financeira da casa e se avizinha quando nos vê a observar a montra.

“É parecido com o Lourinhanosaurus antunesi, que foi descoberto cá”, diz sem hesitações. É escuteira e, nos anos 90, quando se começou realmente a falar nos dinossauros da Lourinhã, foi ao museu, que fica ali ao lado no centro da vila, perguntar se não lhe arranjavam um dinossauro. Agora até é irónico: foi no pinhal onde está o Dino Parque que acampou e fez um jogo com os escuteiros nessa altura. Tinham de encontrar as peças deste dinossauro.

“Estamos muito curiosos com o parque. Tinha-se receio porque não ficou no centro da vila e as pessoas podiam não vir aqui. Mas agora acho que está bem enquadrado na vegetação.” E avisa que a Lourinhã não tem só dinossauros. Manuela Nobre conhece bem o concelho em que nasceu: “Há muitas coisas valiosas. Mas os dinossauros são a porta de entrada na Lourinhã.” Por algum motivo os festeja na sua montra. 

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