Os Emmys foram um jogo Netflix contra HBO... e no fim ganhou A Guerra dos Tronos

18 de Setembro de 2018 | por Público
Os Emmys foram um jogo Netflix contra HBO... e no fim ganhou A Guerra dos Tronos

A noite dos Emmys saldou-se com mais uma vitória de A Guerra dos Tronos e a distinção unânime da comédia da Amazon The Marvelous Mrs. Maisel nas principais categorias – o que é que isso diz sobre a televisão hoje? Que depois de, em 2017, o streaming ter conquistado o primeiro Emmy de melhor série dramática para The Handmaid’s Tale, este ano foi a vez do primeiro prémio de comédia para o serviço da Amazon. E diz-nos que a revolução Netflix já se equiparou ao modelo convencional e teve, aos 70 anos de Emmys, tantos prémios quanto a suspeita do costume há 17 anos, a HBO. Mas sobretudo confirma que na televisão ninguém pára os blockbusters, e que a fantasia de dragões e gelo – que há mais de um ano não está no ar – foi a mais premiada.

Na 70.ª edição dos Emmys, que decorreu na madrugada desta terça-feira em Los Angeles, o olhar sobre os últimos 70 anos deste pequeno enorme meio não foi uma noite de grandes afirmações sobre o estado da arte nem sobre os muitos temas que trespassaram o meio. Não por falta de tentativas, mas lá iremos.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas Televisivas terminou uma noite longa com o Emmy de Melhor Drama para A Guerra dos Tronos(HBO/SyFy/TVSéries), cuja ausência no ano passado (dada a sua data tardia de estreia) permitiu em parte a vitória de The Handmaid’s Tale (Hulu/Nos Play), que era também a sua mais forte concorrente em 2018. Também distinguiu Peter Dinklage como actor secundário na mesma série, e a sua correligionária foi Thandie Newton, a melhor actriz secundária dramática em Westworld(HBO/TVSéries). O melhor actor dramático foi Matthew Rhys pela última temporada de The Americans (FX/Fox Crime), série que também recebeu o prémio de argumento mas que viu Keri Russell perder para Claire Foy, que no seu último ano como rainha em The Crown foi premiada como melhor actriz dramática. A real série Netflix foi também distinguida pela realização de Stephen Daldry.

A comédia foi uma das duas secções dos Emmys em que a dispersão da noite encontrou a excepção, com The Marvelous Mrs. Maisel a dar então o prémio de melhor série à Amazon, de melhor actriz a Rachel Bresnahan, melhor actriz secundária a Alex Borstein e de melhor argumento e realização a Amy Sherman-Palladino. A autora da popular Gilmore Girls tornou-se assim na primeira mulher a acumular esses dois Emmys. Bill Hader e Henry Winkler venceram como protagonista e actor secundário da nova série Barry (HBO/TVSéries). A outra foi a categoria de série limitada, com a favorita American Crime Story: O Assassinato de Versace (FX/Fox Life) a ser premiada pelo protagonista Darren Criss e pelo realizador Ryan Murphy, que subiria ao palco perto do fim da cerimónia também para recolher o Emmy de Melhor Série Limitada - batendo Genius: Picasso (National Geographic), Godless (Netflix), que recebeu prémios de actuação para Jeff Daniels e Merritt Wever, e outras séries ainda por estrear em Portugal.

Contra o favoritismo de Laura Dern pelo filme The Tale (HBO/TVCine), Regina King recebeu o mesmo prémio para a actuação de uma actriz numa série limitada, por Seven Seconds, também Netflix, e o serviço de streaming receberia ainda o prémio de escrita por Black Mirror pelo episódio USS Callister, batendo, entre outros, David Lynch e Mark Frost por Twin PeaksLast Week Tonight, de John Oliver, (HBO/RTP3) bateu Trevor Noah ou Stephen Colbert e Saturday Night Live foi a melhor série de variedades.

Mas posto tudo isto, um dos pontos altos da cerimónia foi mesmo o pedido de casamento do realizador Glenn Weiss, que dirigiu os últimos Óscares e aproveitou o seu Emmy para surpreender a namorada e lançar uma plateia de estrelas em ovação e lágrimas, gerar uma leva de alertas noticiosos e pôs o Twitter em alvoroço romântico. “O melhor momento da noite”, para o Guardian, e que em parte suplantou os momentos criados pela Academia e pelos anfitriões, Colin Jost e Michael Che, para serem memoráveis. E que distraiu momentaneamente o grande público do que fica no final do fogo-de-artifício que enfeitou o número musical de abertura – as contas e os jogos de poder entre canais e produtores, mas também o futuro da televisão. “Com os contributos espantosos das pessoas nesta sala, podemos manter a televisão durante uns cinco, seis anos no máximo”, brincava Colin Jost.

A sombra do dragão

Os Emmys são os prémios mais importantes da televisão norte-americana, mas também a cerimónia e uma academia que lutam contra o desfasamento – do meio televisivo, suas audiências e novas plataformas, entre as séries nomeadas ou premiadas e sua popularidade ou valorização crítica. Já foram criticados por falta de frescura na distinção dos produtos mais disruptivos (o que este ano se pode apontar à ausência de grandes nomeações para Twin Peaks ou de vitórias para Atlanta, por exemplo), e já foram pretexto para um estudo do Katz Media Group que, em 2017 e no ano de The Handmaid’s Tale, concluía que a maioria dos americanos nunca tinha visto ou mesmo nunca sequer tinha ouvido falar de grande parte das séries nomeadas na ausência de séries dos canais generalistas (a excepção este ano era This is Us e as ausências eram Uma Família Muito Moderna ou A Teoria do Big Bang).

São, no fundo, um espelho polido da situação actual da televisão, e é aí que entra A Guerra dos Tronos, a série que sendo da televisão por subscrição, e premium, é um arrasador fenómeno de massas que mal volta a entrar na corrida leva os prémios que pertenceram à dura série The Handmaid's Tale no primeiro ano de presidência Trump e três semanas antes da eclosão do movimento MeToo. Foi em parte sob as suas sombras que decorreu então uma noite partilhada com “as muitas pessoas talentosas e criativas que ainda não foram apanhadas”, como brincou o apresentador Michael Che no número inicial da cerimónia, e com os “milhares na audiência e com as centenas em casa”, como resumiu o outro apresentador, Colin Jost.

A sombra do dragão parecia tímida, só com dois grandes prémios, mas a noite terminou mesmo como o célebre aforismo do futebol em que é tudo muito bonito e são 11 contra 11, mas no fim ganha a eficaz máquina da Alemanha – neste caso, A Guerra dos Tronos, que em 2019 chegará ao fim depois de anos de domínio, e que com 45 Emmys já é a série mais premiada de sempre. Com os nove prémios em 2018 (as contas finais incluem também os Emmys atribuídos na cerimónia prévia Creative Arts), permitiu em parte que as contas continuassem equilibradas para a HBO – ou empatadas.

A histórica casa de Os Sopranos ou The Wire e a nova morada online de Black Mirror ou The Crown receberam 23 Emmys cada depois de pela primeira vez na história o Netflix ter tido mais nomeações para os Emmys (112) do que a HBO (108). A Amazon levou oito prémios, todos de The Marvelous Mrs. Maisel (cinco na cerimónia desta noite e mais três nos Creative Arts), para o campo do streaming, e os quatro Emmys do Hulu somaram 35 distinções para estes novos grandes produtores de TV que tanto investem – é célebre a revelação de que o Netflix gastará 6800 milhões de euros em conteúdos contra os 2 mil milhões de um canal incumbente como a HBO. A NBC foi a terceira mais premiada com 16 Emmys.

Nos últimos dias, escreveu a imprensa especializada, as festas dos Emmys e os mais de cem eventos de promoção para a cerimónia eram dominadas pelas conversas sobre as mudanças no sector, desde as grandes fusões Disney Fox até às consequências dos casos de assédio como a saída do poderoso Les Moonves da presidência do canal generalista CBS. Mas na cerimónia os temas foram outros – a ausência de referências directas ao Presidente dos EUA, as mensagens sobre género e a comunidade LGBTQ de Ryan Murphy e sobretudo a diversidade. Celebrou-se o grupo de nomeados mais diversificado de sempre – “estamos um passo mais perto de um Sheldon negro”, brincaria Kenan Thompson no número musical que dividiu com Kate McKinnon, Kristen Bell e Titus Burgess, entre outros –, e constatou-se que isso é uma trémula vitória – “vêem, não havia nenhuma e agora há uma”, diriam sobre a primeira nomeação para uma actriz de origem asiática no drama para Sandra Oh, por Killing Eve (BBC America).

Os prémios nas principais categorias (vencedores a negrito)

Melhor série dramática

Melhor actor numa série dramática

Melhor actriz numa série dramática

Melhor actor secundário numa série dramática

Melhor actriz secundária numa série dramática

Melhor série de comédia

Melhor actor numa série de comédia

  • Donald Glover - Atlanta
  • William H. Macy - Shameless
  • Bill Hader - Barry
  • Ted Danson - The Good Place
  • Larry David - Curb Your Enthusiasm
  • Anthony Anderson - Black-ish

Melhor actriz numa série de comédia

Melhor actor secundário numa série de comédia

Melhor actriz secundária numa série de comédia

Melhor série limitada

Melhor actor num telefilme ou série limitada

Melhor actriz num telefilme ou série limitada

  • Laura Dern - The Tale
  • Jessica Biel - The Sinner
  • Michelle Dockery - Godless
  • Sarah Paulson - American Horror Story: Cult
  • Edie Falco - Law & Order True Crime: The Menendez Murders
  • Regina King - Seven Seconds

Melhor actor secundário num telefilme ou série limitada

Melhor actriz secundária num telefilme ou série limitada

Melhor série de variedades – talk show

deixe-nos o seu comentário
voltar
em destaque
últimos podcasts
GPS - 13 de Dezembro de 2018
Música da Casa - 13 de Dezembro de 2018
Universo Paralelo - 13 de Dezembro de 2018
Pré Visão - 13 de Dezembro de 2018
Blê Blê Blê - 13 de Dezembro de 2018
os nossos ouvintes
powered by hojenet © Copyright Rádio Nova 2016 - Todos os direitos reservados