Quando Elmano se chamou Cleópatra

10 de Maio de 2019 | por Público
Quando Elmano se chamou Cleópatra

Em Damas da Noite, o espectáculo que estreou ontem no Teatro Carlos Alberto, no Porto, Elmano Sancho parte de uma premissa da sua própria vida – a possibilidade de lhe ter sido dado o nome Cleópatra, caso tivesse nascido rapariga – para construir, ou desconstruir, uma narrativa centrada nas questões da identidade de género. Para este desmantelamento serve-se da figura exuberante das drag queens (transformistas, em português). É nelas que a personagem de Elmano se refugia para criar uma persona feminina que, embora nunca tenha realmente existido, constituiu um desejo profundo do seu pai – francamente doente durante o processo de criação da peça – aquando da gestação do filho homem que surgiu na vez da sonhada Cleópatra.

Ao longo da peça, a personagem principal confronta-se com as dúvidas e vicissitudes de uma transformação que nunca se pautou pela clareza nem pela certeza do seu desejo em levar a mudança a bom porto. De facto, o único rumo certo desta transformação é o nome – o mesmo que estava idealizado pelos progenitores.

Para adensar estas incongruências contribuem as personagens de Dennis Correia e Pedro Simões que dão vida a Lexa Black e Filha da Mãe, respectivamente. São também drag queens que têm como função ajudar – ou pelo menos tentar ajudar – Cleópatra a perceber que persona deseja ser e, acima de tudo, qual a sua mensagem e contributo para o mundo, questão para a qual nunca encontra uma resposta realmente honesta.

As dificuldades que a personagem sente parecem atravessar constantemente a ténue linha que o encenador escolheu entre a realidade e a ficção, já que, segundo o próprio, o “único dado adquirido para a construção deste espectáculo era o nome Cleópatra” – “glória do pai”, em grego, tal como se pode ouvir durante a peça. A construção de Cleópatra foi e é um processo contínuo, para a qual contribuem as drag queens em palco.

Ainda assim e desde uma fase inicial da construção da peça, tornou-se claro para o encenador que Cleópatra seria “apenas” uma figura feminina e não uma mulher. Uma diferença que resulta, na voz do próprio, das limitações temporais inerentes à construção do espectáculo: “É muito ingénuo achar que em dois meses iria conseguir criar uma mulher.”

Estas dificuldades na construção da personagem principal são singulares, principalmente quando comparadas com as que o encenador encontrou em outros projectos, talvez pelo próprio carácter distinto do ponto de partida. “Propusemo-nos a uma coisa quase impossível, que foi criar uma personagem de raiz, sem quaisquer referências. Muitas vezes construímo-las a partir de um texto clássico ou contemporâneo, mas aqui estava tudo por fazer. O espectáculo e a dramaturgia foram criados em volta disso.”

Mas, afinal, o que é ser mulher? E o que é ser homem? O que é uma drag queen? Dois géneros na mesma pessoa? Para Elmano Sancho, “nem a figura de transformista é a criação de uma personagem feminina, não é ser mulher”. Estas são algumas das questões com que a personagem principal se debate já depois de dar início à transformação, com uma única certeza a assaltar os espectadores: “não se é mulher só por se vestir um vestido, calçar uns saltos altos e pôr uma peruca”.

Apenas no final da peça, quando Cleópatra é confrontada com uma representação da sua mãe, já morta e reproduzida na figura de um anjo, a personagem se questiona sobre os propósitos que tinha para a transformação, assim como sobre a influência que as outras drag queens exerceram sobre ela no sentido de a orientar por todo o processo.

Para construir este enredo, Elmano fez “várias entrevistas” para conhecer transformistas de espaços de diversão nocturna, como o Trumps e o Finalmente, mas também no Brasil. Foi através deste trabalho de pesquisa que chegou a Dennis Correia e a Pedro Simões, ambos com experiência e formação cénica.

A peça, na visão do seu criador, pretende “levantar questões e intrigar o público” com temas que, embora do domínio da filosofia e da antropologia, atravessaram os séculos XIX e XX, para explodirem no século XXI. Segundo Elmano Sancho, Damas da Noite, título que remete para essas flores que desabrocham com o anoitecer e se fecham quando o sol começa a raiar, deve ser vista como um “trampolim” para uma reflexão mais longa e profunda sobre as questões de género, mas sobretudo para o que é estar “na pele do outro”.

A peça fica em cena até domingo, dia 12, no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

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