Candidatos à liderança do PSD discordaram mais sobre o partido do que sobre o país

05 de Dezembro de 2019 | por Público
Candidatos à liderança do PSD discordaram mais sobre o partido do que sobre o país

Foi um debate em que foram mais perceptíveis as divergências de Rui Rio, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz em torno da estratégia do PSD seguida pelo actual líder e acerca das causas das derrotas eleitorais do que sobre tudo o resto. No primeiro debate a três, nesta quarta-feira à noite, na RTP, trataram-se por “você”, lançaram farpas (e sim a maçonaria foi assunto) mas acabaram por concordar nas críticas à governação socialista.

Já os três candidatos à liderança do PSD tinham debatido os resultados eleitorais das legislativas e das europeias quando a polémica da maçonaria veio a lume e o líder do partido disse que as suas referências a interesses obscuros eram mesmo dirigidas aos seus dois adversários. “São conhecidos como sendo da maçonaria”, disse Rio, argumentando que não consegue compreender a pertença “a sociedades secretas no-pós 25 de Abril”.

Miguel Pinto Luz, vice-presidente da Câmara de Cascais, esclareceu: “Fui membro da maçonaria, já não sou há mais de dez anos, nunca me senti condicionado”. Quis fazer a declaração “olhos nos olhos a Rui Rio”, mas o líder do PSD mostrou não acreditar.

Luís Montenegro disse não pertencer à maçonaria e devolveu a farpa. “Você faz julgamentos com base em notícias, que é o contrário do que defende”, disse, depois de Rio ter mostrado um artigo de jornal e um livro onde os seus adversários eram referidos como pertencendo à maçonaria.

O meu desaire é menor do que o teu

A tensão já tinha sido visível quando foram colocados em cima da mesa as derrotas das europeias e das legislativas. Rio defendeu que os números “tem de ser contextualizados” e voltou a apontar a “guerrilha interna” e o “golpe de Janeiro” como um factor que contribuiu para os resultados. Ficou à defesa: tanto Montenegro como Pinto Luz não aceitam a instabilidade interna como argumento e acusaram Rio de “subalternizar” o PSD ao PS.

O ex-líder da bancada confrontou Rio com dois exemplos de discordâncias entre os sociais-democratas: o antigo vice-presidente de Rui Rio, Castro Almeida, e o ex-Presidente da República Cavaco Silva. “Acha que são dois dos seus críticos”, ironizou, acusando: “Não tivemos um líder agregador”. Perguntou a Rio o que tinha feito para unir o partido e este aproveitou a deixa para contra-atacar: “Ao longo destes dois anos, procurei não ouvir as críticas constantes”.

O ex-líder da bancada respondeu à acusação de Rio de ter feito um golpe no partido com o desafio à liderança de Janeiro de 2018: “Não houve golpe nenhum”. E logo a seguir Montenegro criticou o ex-autarca do Porto por ter “montado” uma candidatura contra o PSD, em 2013, ao apoiar o independente Rui Moreira como sucessor na câmara, contra o candidato do PSD, Luís Filipe Menezes, para hoje estar zangado com o primeiro e “andar aos beijos na boca” com o segundo.

Pinto Luz também foi ao passado para observar que Rio “não estava ao lado de Passos Coelho” quando este tentava “salvar o país” da troika.

Na discussão das derrotas políticas averbadas, Rio também desferiu os seus golpes. “Foi duas vezes candidato à Câmara de Espinho e não conseguiu ganhar. É essa a performance do doutor Luís Montenegro”, atirou ao ex-líder parlamentar do PSD. Ao vice-presidente da Câmara de Cascais citou os maus resultados do PSD em Lisboa, Sintra, Loures e Vila Franca e concluiu da mesma forma. “É esta a performance do engenheiro Pinto Luz”.

Ambos os adversários reagiram, lembrando a Rio que não tem muitos motivos para se vangloriar. “O senhor foi quem mais vezes conseguiu resultados históricos muito maus. O que é que vai mudar? Vai continuar a perseguir militantes”, quis saber o autarca cascalense. Rio defendeu-se: “Há resultados e resultados.”

Cooperar ou muito pelo contrário

As diferenças de estratégia partidária ficaram muito visíveis (sobretudo entre Montenegro e Rio) quando os candidatos foram confrontados com a política de acordos com o PS, incluindo a viabilização de orçamentos do Estado. O ex-líder da bancada citou Sá Carneiro (que é a figura de referência para Rio) sobre a atitude que o PSD deveria ter relativamente ao PS — fazer “crítica exigente” e não cooperar.

Montenegro tem dito que não viabilizará orçamento nenhum. “Alguém acredita que os orçamentos do PS vão desdizer o que está no programa do PS? Não tenhamos ilusões, o PS não quer fazer entendimentos estruturais connosco”, disse nesta quarta-feira.

Rio assumiu a divergência: “Na situação actual devemos ser uma oposição construtiva, criticar quando vamos criticar, denunciar, e depois mostrar a alternativa. E também de concordar. E para concordar é preciso ter grandeza”.

Pinto Luz admitiu “viabilizar qualquer orçamento do Estado se for bom para os portugueses” — e aqui Rio comentou “muito bem” —, mas acrescentou não acreditar que “António Costa apresente um Orçamento bom para portugueses”.

As críticas à política do Governo PS apoiado pelos partidos mais à esquerda mereceu quase um consenso. Foi um dos raros momentos em que Montenegro disse estar “de acordo com Rio” na ideia de que “o país tem de criar mais riqueza e uma das políticas-chave é a política fiscal”. Pinto Luz deu cobertura à solução já defendida pelos outros dois candidatos ao defender que a economia tem de estar assente nas exportações e no investimento.

Autárquicas fundamentais

Os três candidatos aproximaram-se muito na questão das autárquicas como eleições fundamentais para o PSD. Tal como Rui Rio, Luís Montenegro admitiu que o “definhamento do PSD no poder local vem de trás”, e considerou que a “vitória está ao alcance em Lisboa”, que deve ser o motor para a campanha do partido.

Para Rio, as autárquicas são até mais importantes do que as legislativas. Mas quem acabou por se atravessar com um número de autarquias a conquistar em 2021 para poder cantar vitória foi Luís Montenegro (que até já tem alguns nomes de candidatos na cabeça).

Depois de dizer que o PSD tem “de mobilizar os melhores”, o ex-líder parlamentar acrescentou que “para ganhar as autárquicas e ter mais uma câmara que o PS, o PSD não pode perder nenhuma e tem de ganhar 32 ao PS, mas como se perde sempre algumas, é difícil fazer isso sem ganhar 40 câmaras.”

Rui Rio não entrou no jogo dos números. Mas quis dizer que “mais importante do que ganhar é subir o resultado”, mesmo que se perca.

Pinto Luz assumiu a “ambição” de ganhar as autárquicas — o que Rio considera difícil por ser necessário conquistar os tais 40 municípios, sem perder nenhum — e lembrou que o partido perdeu para independentes. “Perdemos muitas câmaras para nós próprios, para sociais-democratas que agora são independentes”. E disse que, se for eleito líder, há-de “agregar” e impedir “estas guerras intestinas”.

Tanto o autarca de Cascais como o ex-líder da bancada defenderam “novos rostos” para essas eleições, uma mobilização tal como aconteceu em 2001 em que Rui Rio foi candidato pela primeira vez à Câmara do Porto.

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