Meteorizações

Filipa César (Porto, 1975) é cineasta, investigadora, educadora e organizadora comunitária.

16 Jan
a
31 Mai

Fundação de Serralves e a Fundação EDP apresentam Meteorizações, um projeto de grande escala que marca a estreia de uma apresentação antológica da obra de Filipa César e que afirma um momento decisivo no percurso da artista, reunindo um vasto conjunto de trabalhos desenvolvidos ao longo de uma década e meia.

Com curadoria de Inês Grosso e Paula Nascimento, a exposição resulta de um processo de 15 anos de pesquisa artística, intelectual e colaborativa, alimentado por deslocações sucessivas e por um envolvimento profundo com a Guiné-Bissau. O projeto aborda materiais fílmicos e documentais, práticas de circulação de imagens e modos locais de cuidar da memória visual, dialogando com o pensamento político e cultural de Amílcar Cabral, figura central do anticolonialismo do século XX.

O título da exposição remete para uma noção oriunda da geologia, reinterpretada por Cabral, que entende a terra como produto de forças naturais e de dinâmicas históricas e políticas em permanente mutação. Esta ideia serve de ponto de partida para refletir sobre arquivos frágeis, saberes em risco de desaparecimento e lacunas da história. A exposição propõe que é precisamente a partir desses desgastes e ausências que podem emergir novas leituras, ativações e possibilidades de transmissão, sublinhando a ligação entre lutas de libertação, território e responsabilidade coletiva.

O percurso expositivo integra filmes, documentos e materiais inéditos, desde obras iniciais como The Embassy, realizada em 2011, até produções mais recentes. Em vez de uma narrativa linear, a exposição constrói relações transversais entre diferentes tempos, suportes e contextos, convidando o público a pensar criticamente o passado colonial e as suas reverberações no presente.

Meteorizações é também uma celebração do trabalho colaborativo que marca a prática artística de César, dando visibilidade às redes que criou com comunidades, curadores e intelectuais, cineastas, artistas e investigadores como Sana na N’Hada, Sónia Vaz Borges, Marinho de Pina, Louis Henderson, et al. Dessa forma, a exposição subverte o formato tradicional de retrospetiva ao privilegiar processos coletivos de investigação, restituição e releitura de arquivos, uma abordagem particularmente pertinente num tempo de ascensão da extrema-direita e de reconfiguração das memórias coloniais na Europa, em que o passado é frequentemente instrumentalizado e simplificado. Ao afirmar a história como um processo comum e em transformação, a exposição reivindica a complexidade dos seus legados e a necessidade de os repensar coletivamente.

A conceção espacial, desenvolvida em colaboração com o atelier de Mariana Mateus Barbosa, assume um papel estruturante na leitura do conjunto. A escolha de materiais como blocos de cânhamo e outros elementos de origem natural reforça a dimensão ecológica e política do projeto, em sintonia com o interesse da artista pelas relações entre solo, território e memória. A experiência é complementada por uma paisagem sonora original de João Polido Gomes, criada especificamente para cada espaço e pensada como um elemento de diálogo sensível com as obras, contribuindo para uma vivência imersiva da exposição.

Mecenas Fundação EDP sublinha percurso singular de Filipa César 

Fundação EDP salienta o “percurso artístico internacional, tão singular quanto relevante, privilegiando no seu trabalho interdisciplinar os campos do cinema e das artes visuais. A sua obra confronta-nos recorrentemente com questões da nossa memória coletiva e do nosso tempo, com um foco muito particular nos temas relacionados com o colonialismo português e as suas repercussões.

É por isso, acrescenta o Mecenas de Meteorizações, que “é com enorme satisfação que a Fundação EDP se associa, enquanto Mecenas, a esta sua exposição antológica no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Com esta colaboração, a Fundação EDP assinala a sua relação histórica com a Fundação de Serralves e o compromisso comum das duas instituições com a arte contemporânea, convictas do seu papel fundamental na construção de uma sociedade mais plural, atenta e sensível às questões essenciais dos dias de hoje.

Publicação inédita acompanha exposição

A exposição inclui ainda uma publicação inédita, com design de Barbara says e coordenação de Amarante Abramovici, reunindo um arquivo de ensaios, conversas, correspondência que acompanhou este processo nos últimos 15 anos.

Produzida pela Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, a exposição tem curadoria de Inês Grosso, curadora-chefe do Museu de Serralves, e de Paula Nascimento.

Estará patente de 16 de janeiro a 31 de maio de 2026.

Sobre Filipa César

Filipa César (Porto, 1975) é cineasta, investigadora, educadora e organizadora comunitária. Interessa-se pelas fronteiras fluídas entre o cinema e a sua receção, pelas políticas e poéticas da imagem em movimento e pelas práticas arquivísticas. Desde 2011, César tem vindo a investigar coletivamente a prática de cinema militante e a agropoética do Movimento de Libertação Africano na Guiné-Bissau, através da produção de oficinas, arquivos, textos, filmes, performances, publicações e encontros comunitários. Com cine-afinidades e alianças, iniciou o projeto arquivístico experimental luta ca caba inda no âmbito dos projetos de investigação Living Archive (2011-2013) e Visionary Archive (2013-2015) do Arsenal – Institute for Film and Video Art, em Berlim. César foi cofundadora da Abotcha – Mediateca Onshore em Malafo (Guiné-Bissau) em 2018 e ocupa o professorado de Time-based Media e Performance na HfG Karlsruhe desde 2023. Co-organizou vários encontros, incluindo o workshop e publicação Anti-colonial Records com a Archive Books, e o campo de treino antirracista O Que Fazer Junto. César estreou o seu primeiro filme-ensaio de longa-metragem, Spell Reel, na secção Forum da Berlinale em 2017. Os seus filmes e instalações foram apresentados mundialmente em festivais e museus como Gasworks, Londres; Seminário Flaherty e MoMA, Nova Iorque; Forum e Forum Expanded da Berlinale; Fundação Gulbenkian, Lisboa/Paris; Harvard Art Museum, Boston; SAVVY Contemporary e HKW, Berlim; e GfZK, Leipzig, entre outros.

Sobre a Fundação EDP

A Fundação EDP é uma instituição privada com estatuto de utilidade pública, sem fins lucrativos, criada pela EDP, S.A. Enquanto Fundação de uma empresa cosmopolita e socialmente responsável, assume como missão contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, através de iniciativas sociais, culturais e científicas, que promovam a coesão social, o desenvolvimento sustentável e a transição energética justa.

Imagem: nvstudio

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