
De curadoria coletiva e orgânica, este primeiro momento tem como cerne o futebol local entre as zonas de fronteira da Avenida Fernão de Magalhães e os limites da cidade a oriente.

O Matadouro – Centro Cultural do Porto inaugura, no próximo domingo, 4 de outubro, a exposição “Modelações Desportivas no Porto Oriental”. Primeira iteração de uma série expositiva, integrada no programa Caminhos a Oriente, põe em campo uma proposta para a leitura da Zona Oriental do Porto através de uma prática eminentemente social: o futebol e poderá ser visitada até 20 de dezembro.
“Modelações “Modelações Desportivas no Porto Oriental – Contentor#1: Futebol”, com um arco temporal desde o início do século XX (mais especificamente a transição entre a Monarquia Constitucional e a 1.ª República) até aos nossos dias —, parte de um levantamento sobre a distribuição territorial das coletividades que se dedicaram ao futebol, bem como dos campos ou recintos que acolheram e continuam a acolher esta modalidade.
Propõe a análise das justaposições ou cruzamentos entre clubes e bairros, além da presença de estruturas desportivas associadas a empresas e instituições. Interessa observar não apenas onde se jogou (e onde se joga), mas também de que modo o fenómeno desportivo se moldou aos processos de urbanização, industrialização, habitação, mobilidade, associativismo e transformação da paisagem do Porto Oriental
A mostra assume uma natureza de ensaio expositivo situado entre o arquivo e a sede associativa. De curadoria coletiva e orgânica, este primeiro momento tem como cerne o futebol local entre as zonas de fronteira da Avenida Fernão de Magalhães e os limites da cidade a oriente.
Esta exposição pretende contribuir para uma plataforma de estudo, aditiva e moldável, através da apresentação de documentos, fotografias, objetos, testemunhos e outros vestígios relacionados com os lugares e comunidades do Porto Oriental.
A partir destes materiais são potenciadas as relações entre futebol, cidade e identidades. Mais do que meros pontos num mapa, os clubes, campos, sedes, empresas e bairros, são aqui considerados elementos de uma rede social e espacial que se transforma com o passar do tempo.
Para a constituição desta pesquisa foi essencial o acesso ao espólio Alcino Barros – arquivista, colecionador e jornalista muito dedicado às modalidades desportivas, disponibilizado para o projeto pelo próprio e pela sua família, a que se juntam outros elementos recolhidos no Arquivo Histórico Municipal e a colaboração de várias pessoas relacionadas aos clubes e associações locais em forma de testemunho.
Este ensaio expositivo parte dessa massa arquivística para trabalhar a relação entre diferentes escalas: o campo ou ringue associado ao bairro ou ao lugar, a sede ou associação recreativa, as equipas fabris e os campeonatos corporativos ou, a competição à escala internacional. A ligação com o bairro constitui, assim, uma das leituras principais da mostra que terá lugar no espaço Barros Lima n.º 810.
Programação paralela inclui caminhadas e conversas
Na tarde de 4 de outubro, aquando da inauguração, a Rua de Barros Lima será ocupada, também, com outras atividades que estão em preparação e que promoverão a participação de associados e aficionados de clubes do Porto Oriental representados na mostra, além de convocar para o momento outras sinergias da zona Barros Lima.
Após esta data, a exposição poderá ser visitada até 20 de dezembro aos fins-de-semana, das 10 às 17 horas. Nos dias úteis será necessária marcação através de matadouro@agoraporto.pt.
No âmbito da programação paralela, após uma primeira parte da caminhada realizada a 20 de setembro “Do Estádio ao campo de Bairro – Futebol, cidade e identidades no Porto Oriental”, orientada por Gaspar Martins Pereira, Caminhos a Oriente participa com uma segunda parte conduzida a 18 de outubro pelo antropólogo social Nuno Domingos (investigador principal no ICS-UL).
Está também em desenvolvimento, com a colaboração do sociólogo Virgílio Borges Pereira e João Queirós, o ciclo de conversas “Onze em Campo” que, acompanhando o tempo de exposição, prolonga para fora do arquivo algumas das questões, histórias e relações que o projeto coloca em campo.
A 20 de setembro, o grupo de inscritos na caminhada participada do programa teve a oportunidade de fazer uma leitura pré-inaugural desta mostra, que contou com a orientação do historiador Gaspar Martins Pereira e cujo ponto de partida foi o Estádio do Dragão.
Sobre o Espólio Alcino Barros
O espólio de Alcino Barros foi crescendo ao longo dos anos, abrangendo jornais, revistas, fotografias, livros, publicações e objetos de época. A sua paixão pelo colecionismo acompanhou uma carreira de quase quatro décadas no jornalismo, iniciada n’O Comércio do Porto e desenvolvida em diferentes jornais, rádios, televisões e agências noticiosas.
Atualmente, mantém a atividade jornalística nas áreas do Desporto e dos Casos do Dia. O interesse pela preservação de memórias e documentos históricos foi também partilhado com o pai, Carlos Barros, jornalista de O Século e da Rádio Renascença, a quem desde cedo incentivou a procurar nos alfarrabistas publicações históricas.
Parte desta coleção de Alcino Barros foi já apresentada ao público em duas exposições: a primeira, dedicada a diversos temas da história nacional e da cidade do Porto, e a mais recente, realizada na Associação de Moradores da Bouça, dedicada ao 25 de Abril de 1974.
Imagem: André Rolo



