Centro Histórico do Porto mudou com classificação mas hoje vive “ameaçado”

A conversa ocorreu no seio de um fórum sobre os 30 anos da classificação da UNESCO e dos 25 anos desde a Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura, na Casa da Música.

Fevereiro 20, 2026

A classificação pela UNESCO do Centro Histórico do Porto como Património Mundial, em 1996, mudou a cidade para melhor, mas também lhe trouxe “ameaças”, do turismo à desertificação, alertaram hoje vários especialistas.

Na Casa da Música, o painel “Porto, Património Mundial: O que fica, 30 anos depois?” refletiu sobre as três décadas desde a classificação, com Rui Loza, coordenador da elaboração do processo de candidatura, a lembrar que o turismo, aqui como noutros lugares, “é um mal necessário, um bem que tem de ser gerido, e uma realidade que existe de facto”.

Mais do que olhar para os últimos 30 anos, uma história que está “escrita, registada, publicada em livro”, prefere pensar no futuro e no que ele exige em termos de “esforço de planeamento, gestão e organização”, considerando haver “um défice de gestão do centro histórico”, por uma “certa diluição da reabilitação urbana”, agora espalhada por mais zonas da cidade, de Cedofeita a Massarelos, Ramalde ou Campanhã.

“Uma coisa é ser importante, outra é haver uma equipa centrada, dedicada, com botas no terreno, em cada uma destas operações. A mesma equipa gerir Campanhã e o Centro Histórico? Não gere. Ou gere uma ou outra, com todo o respeito pelos técnicos”, apontou.

O arquiteto João Rapagão, que foi administrador da Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto, conversou sobre o trabalho desta instituição nos anos 1990 e o impacto que teve em aliar a intervenção social à defesa do património, construindo e reabilitando casas, desagregando fogos para desdobrar agregados familiares, e outras medidas.

Rapagão lamentou o que diz ser, pelas suas contas, uma perda de habitantes nas antigas freguesias da Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, compondo o centro classificado, a rondar um terço da população, entre 2001 e 2011, números que teme terem piorado com o avançar dos anos.

“Eu não vou muito ao Centro Histórico, agora. A imagem que me veio há dias, quando lá fui, foi de carniça. Vejo tudo aquilo apoderado de forma completamente desobstinada por restaurantes, turistas… Não tenho onde pôr pé no espaço público, (…) e já não encontro os moradores”, lamentou.

Para o arquiteto e docente universitário, o centro histórico tem uma “herança” social, das pessoas, que corre risco. “Corremos o risco de ter ali uma carcaça e não termos pessoas. O património são as pessoas, não são as carcaças, não são as pedras”, atirou.

A mesma visão tem Laura Castro, diretora regional de cultura do norte entre 2021 e 2023, que referiu que é urgente um “trabalho de sensibilização que tem de ser contínuo” para a recuperação e conservação do património, com um “esforço de transmissão” e partilha de memória que fica mais débil com a desertificação da zona.

Ainda assim, fez um “balanço positivo”, porque “o Porto está melhor do que se não tivesse sido classificado”, e não considerou que a cidade possa ter em risco a perda deste estatuto de Património Mundial, até comparando com outras classificações pelo mundo.

Já o presidente do instituto Património Cultural, João Soalheiro, vê a classificação como “uma oportunidade absolutamente extraordinária”, salientando o “casamento singular que o Douro proporciona às pessoas que vivem” na cidade.

“Quando olho hoje para as duas margens do Douro e a única coisa que vejo, com afã, são… contei 38 gruas, desde a Ponte Luiz I até à Afurada [em Vila Nova de Gaia]. (…) A classificação foi importante para o Porto, chamou à atenção do mundo para esta maneira singular de ser gente num sítio absolutamente extraordinário, trouxe responsabilidades públicas e privadas, é verdade, algumas cumpridas com muito sucesso, outras ainda a haver”, refletiu.

Para a frente, pediu, um “futuro fervilhante, pulsante de vida e determinado” para o Porto exige “reflexão, por todos, mas em particular por quem comanda os destinos coletivos”, para defender uma “relação que não existiu nos últimos anos”: a de manter um equilíbrio urbanístico entre um terço para habitação, um terço para serviços e outro terço para comércio, nos arruamentos, e com isso “manter o tecido social saudável”.

“Claro, a chancela da UNESCO trouxe um novo interesse, e densificou a massa turística da cidade. É verdade. Mas será que não podíamos ter feito um regime misto do ponto de vista dos hotéis e ter um parque hoteleiro periférico que contivesse um bocadinho a massa turística no centro histórico? (…) Será que temos mesmo necessidade de transformar todos os números de polícia do centro histórico em hotéis ou alojamentos locais? Eu estou convencido que não, mas alguém terá de ter coragem de decidir para fazer diferente”, acrescentou.

Se Soalheiro vê o Porto como estando “vivo”, com mais de 800 pedidos de pareceres para o centro histórico recebidos pela administração cultural em 2025, Rapagão, não deixou de lamentar que a maior parte dessas intervenções se destinem ao alojamento local, “uma praga” que anda de mãos dadas com a desertificação dos portuenses daquela zona, mas também das instituições e associações da cidade.

Nessa matéria, Rui Loza lembrou o regulamento atualmente em vigor sobre os “AL”, considerando-o “relativamente drástico”, mesmo que antes possa ter surgido “uma situação excessiva”.

A conversa ocorreu no seio de um fórum sobre os 30 anos da classificação da UNESCO e dos 25 anos desde a Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura, na Casa da Música.

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