Detidos por corrupção na Águas de Gaia em silêncio perante juiz de instrução

Os 13 detidos são sete funcionários da ADGaia, três dos quais com cargos de chefia, um ex-funcionário e cinco empresários ligados à construção civil e à venda de materiais.

Maio 29, 2026

Os 13 detidos na operação “Águas Turvas”, que investiga um alegado esquema de corrupção na empresa municipal Águas de Gaia (ADGaia), remeteram-se hoje ao silêncio no primeiro interrogatório judicial no Tribunal de Instrução Criminal do Porto.

Fonte judicial explicou à agência Lusa que nenhum dos arguidos quis prestar declarações perante o juiz de instrução criminal, seguindo-se agora a fase em que o Ministério Público vai promover as medidas de coação que entende ser adequadas a cada um dos arguidos.

Segundo a mesma fonte, as medidas de coação serão conhecidas entre segunda e terça-feira, devendo os arguidos permanecer detidos até lá.

Os 13 detidos são sete funcionários da ADGaia, três dos quais com cargos de chefia, um ex-funcionário e cinco empresários ligados à construção civil e à venda de materiais.

“A investigação, em curso há cerca de 17 meses, incide sobre um amplo esquema organizado de criminalidade económico-financeira, desenvolvido através da conjugação de esforços entre empresários do setor privado e funcionários da Empresa Municipal Águas de Gaia (ADGaia), com poderes decisórios relevantes no âmbito da contratação pública e sua respetiva execução”, adiantou a Polícia Judiciária (PJ) na terça-feira, dia das detenções, em comunicado.

O Ministério Público (MP) sustenta que os sete funcionários da Águas de Gaia detidos manipularam, alegadamente, dezenas de contratos para adjudicação ao mesmo empreiteiro em troca de dinheiro, eletrodomésticos, compras, jantares, férias, obras em casa e consultas médicas.

Um despacho judicial, a que a agência Lusa teve anteriormente acesso, refere que, entre 2009 e 03 de fevereiro de 2026, um empresário da construção, outro dos 13 detidos, teve a adjudicação de 98 contratos públicos, de quase 11 milhões de euros, 81 deles celebrados com a ADGAIA, tendo emitido faturas à empresa municipal no montante global de cerca de 8,5 milhões de euros.

A investigação diz que em 2024 e em 2025 este empreiteiro faturou à ADGaia cerca de 1,8 milhões de euros, representando 73% da sua faturação total, acrescentando que, nestes dois anos, o arguido efetuou levantamentos bancários superiores a 45 mil euros, para supostos pagamentos em numerários aos funcionários detidos, alguns dos quais diretores.

O despacho indica que o empresário pagou almoços e jantares aos funcionários com o objetivo de, alegadamente, os recompensar e para continuar a ser beneficiado em futuras adjudicações.

Quanto ao ex-funcionário da ADGaia detido, a investigação apurou que, em março de 2024, o suspeito, à data diretor da Direção das Águas e Abastecimento (DAA), constituiu uma sociedade à qual se dedicou plenamente a partir de maio de 2025, quando se aposentou.

Segundo o MP, esta sociedade não tem qualquer estrutura empresarial minimamente compatível com o exercício regular de uma atividade económica, não dispondo de trabalhadores nem de meios materiais ou logísticos.

Em 2024 e 2025 esta sociedade apresentou um volume de faturação de quase 1,94 milhões de euros e foi, acredita a investigação, constituída com o propósito de, através dela, o suspeito receber fundos financeiros, que lhe foram pagos por empresários detidos, como contrapartida da manipulação e favorecimento dessas empresas nos procedimentos concursais lançados por DAA, por si gerida até 15 de maio de 2025.

Após se aposentar, a investigação diz que o suspeito manteve a sua esfera de influência e contactos sobre alguns funcionários, particularmente sobre três dos suspeitos.

Em causa está a prática de crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, abuso de poder e branqueamento.

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