Na abertura de uma visita guiada a esta antiga fábrica histórica da cidade, na Rua dos Bragas, o diretor municipal de Cultura, Lino Teixeira, afirmou que a autarquia recebeu “uma doação generosa”, que será votada terça-feira em reunião do executivo.

A Câmara do Porto vai receber uma “doação generosa” do promotor da obra de transformação da antiga fábrica Companhia Aurifícia, de máquinas e acervo documental, que irão para o Museu da Indústria, disse hoje o diretor municipal de Cultura.
Na abertura de uma visita guiada a esta antiga fábrica histórica da cidade, na Rua dos Bragas, o diretor municipal de Cultura, Lino Teixeira, afirmou que a autarquia recebeu “uma doação generosa”, que será votada terça-feira em reunião do executivo.
Em causa está, segundo o ponto a isso dedicado na ordem de trabalhos dessa sessão, a doação de 17 máquinas e ainda arquivo documental pela Companhia Aurifícia, que hoje foi alvo de uma visita guiada no âmbito das Jornadas Europeias do Património, assim como do programa Malha Porto, que atraiu mais de meia centena de pessoas.
“Hoje é das últimas vezes a que se poderá vir a este espaço antes dessa intervenção. Mas estejam tranquilos, a parte industrial estará preservada e tratada no Museu da Indústria”, declarou Lino Teixeira, no coração deste “tesouro em pleno miolo do centro da cidade”.
De resto, também o próprio projeto futuro, que será essencialmente dedicado a habitação e serviços, vai abrir o quarteirão à via pública, com três pontos de acesso livre para lembrar a memória daquele lugar, preservando também algumas máquinas, segundo explicou Vítor Fonseca, da empresa Arqueologia e Património, que tem feito trabalhos nestas áreas neste local.
Várias demolições foram já levadas a cabo, para lá dos portões que dão para a Rua dos Bragas, onde está instalado o “stand” de vendas e um cartaz que dá conta da “nova vida” da antiga fábrica, e onde alguém grafitou, por cima, as palavras “gentrificação não”.
De acordo com informação patente no “site” oficial do empreendimento, o apartamento mais barato ainda disponível custa 370 mil euros, por um T0 com cerca de 43 metros quadrados de área bruta privativa, além de uma zona exterior e um lugar de estacionamento — o mais caro é um T4, por 1,885 milhões de euros.
Junto à maquete da Aurifícia, o arquiteto Rui Almeida, da Ventura + Partners, que assina o projeto, explicou as “linhas orientadoras” que assentam na rua que vai ligar a Rua dos Bragas a Álvares Cabral, com uma via aberta ao público, mas vedada a carros, com exceção de moradores e viaturas de emergência.
Segundo o arquiteto, o licenciamento só não está ainda totalmente “fechado” porque “faltam acertos sobre as obras de urbanização”, e a partir desse momento estima em dois anos o tempo de obra.
Em maio, a Lusa noticiou que o processo da reconversão da antiga Companhia Aurifícia já tinha aprovados dois projetos de arquitetura do licenciamento relativo às obras de edificação deste antigo complexo, mas que faltava ainda o de urbanização.
De resto, a sessão de hoje contou com uma recensão histórica pela especialista Maria da Luz Sampaio, que acompanhou os presentes pelo vários detalhes da Companhia, cujas origens remontam a um alvará de 1864 que durou até aos primeiros anos do século XXI, tendo uma história entre ourivesaria, carpintaria, serraria, latoaria, laminagem, no campo de pregos e parafusos, chapas e medalhas, entre outras funções.
Em julho, a Campo Aberto, a Quercus e um conjunto de denunciantes apresentaram queixa ao Ministério Público contra a Câmara do Porto e “se aplicável” contra os promotores da operação urbanística, alegando ilegalidades urbanísticas e ambientais no projeto para a reconversão da antiga Companhia Aurifícia, pedindo a suspensão imediata dos trabalhos em curso.
Assente num terreno com mais de 19 mil metros quadrados, o projeto prevê a criação de 122 novos fogos de habitação, comércio e serviços, bem com a abertura de uma nova via que vai ligar a Rua dos Bragas à Rua de Álvares Cabral.
De acordo com uma memória descritiva datada de dezembro de 2024, anexada ao Pedido de Informação Prévia (PIP) e consultada pela Lusa, na primeira parcela vão ser reabilitados seis edifícios pré-existentes e que estão classificados como Conjunto de Interesse Público.
Dos seis, há dois edifícios que vão ser destinados a habitação, outro a “serviços”, um será adaptado a escritórios, um edifício que correspondia à casa do proprietário da Companhia, dada a sua “espacialidade única”, vai ser reconvertido num restaurante, e outro nascerá de junção de dois edifícios virados para Álvares Cabral, desses mantendo-se apenas as fachadas.
O dono da obra é a Companhia Aurifícia – Sic Imobiliária Fechada, S.A., uma sociedade por sua vez representada na proposta de contrato com o município por administradores da Imorendimento, Rui António de Magalhães Madureira Pinto e Luís Eduardo Menezes Marinho Marques.
Para além da nova via, 400 metros quadrados da área a ser cedida ao domínio público estão destinados a áreas verdes, com estacionamento privado, para 252 lugares, em “caves enterradas”.
Em dezembro de 2012, o Governo classificou como Conjunto de Interesse Público a Companhia Aurifícia, referindo tratar-se de um “património excecional” e “o exemplo mais bem preservado e coerente de uma instalação industrial dos séculos XIX-XX na área metropolitana do Porto”.