O jornalista encontrava-se há ja algum tempo debilitado, mas não estava doente,

O escritor e jornalista Joaquim Letria morreu hoje, aos 82 anos, em sua casa, disse à Lusa fonte familiar.
O jornalista encontrava-se há ja algum tempo debilitado, mas não estava doente, acrescentou a mesma fonte.
Nascido no dia 08 de novembro de 1943, Joaquim Letria afirmou-se cedo no jornalismo português e foi fundador dos semanários O Jornal, Tal & Qual e revista Sábado.
Ainda jovem, foi presidente da Comissão Pró-Associação dos Estudantes do Ensino Liceal, um dos mais importantes movimentos associativos e de resistência estudantil à ditadura do Estado Novo em Portugal, fundamental na crise académica de 1962.
A sua carreira jornalística arrancou em 1963 no Diário de Lisboa, tendo trabalhado também na revista Flama e no Rádio Clube Português.
Foi repórter internacional da Associated Press (AP) e correspondente da alemã Deutsche Presse-Agentur, antes de se mudar para Londres, em 1970, para trabalhar na BBC.
Joaquim Letria foi um dos primeiros colaboradores do Expresso, a partir de Londres, e regressou a Portugal após o 25 de Abril de 1974 para fazer parte da direção de informação da RTP, tendo sido, no ano seguinte, um dos fundadores do semanário O Jornal.
Na televisão, esteve ligado ao noticiário do segundo canal da RTP, o Informação 2, tendo-se destacado como autor e apresentador de programas como Diretíssimo e Tal&Qual, que juntavam entrevistas, informação, entretenimento, e nos quais ensaiou as primeiras rubricas de “Apanhados”, em Portugal, que mais tarde ganharam autonomia, na televisão pública e noutros canais, sob a mesma e novas designações.
No dia 06 de novembro de 1975, moderou, juntamente com José Carlos Megre, o famoso debate que pôs frente a frente Mário Soares (líder do PS) e Álvaro Cunhal (líder do PCP) e que ficaria para sempre associado à expressão “olhe que não, olhe que não”.
Entre as personalidades que entrevistou, contam-se nomes como o pintor surrealista espanhol Salvador Dalí e o líder revolucionário e primeiro presidente de Moçambique após a independência, Samora Machel.
Como repórter internacional, ao serviço da AP, cobriu os acontecimentos relacionados com a morte do guerrilheiro marxista Ernesto “Che” Guevara, em 1967, na Bolívia.
Joaquim Letria passou também pela agência de notícias ANOP, fundou o semanário Tal&Qual, em 1980, e esteve na origem da primeira série da revista Sábado, que dirigiu, em 1988.
Entre 1981 e 1986, foi porta-voz do Presidente da República Ramalho Eanes.
Exerceu funções como presidente do Sindicato dos Jornalistas (1987-1988) e lecionou jornalismo durante mais de duas décadas, tendo passado pela Escola Superior de Jornalismo do Porto, pelas universidades Independente e Autónoma de Lisboa e pelo Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração, em Aveiro.
O jornalista colaborou ainda com a Rádio Comercial e com o diário 24 Horas.
Recebeu o Prémio da Imprensa relativo a 1974, na categoria de televisão.
Como escritor, a sua atividade incluiu livros de crónicas e de reflexão sobre o jornalismo, a censura e o exercício da profissão.
Entre os livros que publicou contam-se “Histórias para Ler e Deitar Fora” (1987), “A Verdade Confiscada — Escândalo — A Armadilha da Nova Censura” (1998), “Pequeno Breviário Jornalístico — Géneros, Estilos e Técnicas” e “Livro de Assentos”, ambos de 1999, e “A Arte da Crónica — Um Pontapé nos Textículos” (2023).
O seu percurso foi também tema do livro de entrevistas “Joaquim Letria — Sem Papas na Língua”, de Dora Santos Rosa, publicado em 2014.