Maioria dos universitários do Porto sente declínio na saúde mental com exames

O inquérito revela ainda que na perceção de 75% dos estudantes, esse declínio tem interferido nas atividades académicas.

Janeiro 8, 2024

A maioria dos estudantes do ensino superior do Porto diz estar sentir um declínio na saúde mental com o início da época de exames que se iniciou, indica um inquérito a que a Lusa teve hoje acesso.

Um inquérito realizado pela Federação Académica do Porto (FAP) a 1.218 alunos na primeira semana do ano de 2024 — entre 03 e 07 de janeiro -, revela que nove em cada 10 estudantes inquiridos dizem que sentem um declínio no bem-estar psicológico com a aproximação da época de exames.

“Questionados sobre se a aproximação à época de exames provoca um declínio significativo do bem-estar psicológico, nove em cada 10 responderam afirmativamente”, lê-se nas conclusões do inquérito.

Os dados recolhidos revelam também que 79% dos 1.218 estudantes inquiridos sentiram um “declínio significativo do seu bem-estar psicológico ao longo do primeiro semestre letivo”.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da FAP, Francisco Fernandes, diz que este inquérito reflete uma “situação alarmante” que deveria justificar uma “atenção” do Governo e das instituições de ensino superior.

“A saúde mental não pode ser discurso e depois ser normal os estudantes começarem os exames a 02 de janeiro ou terem três exames na mesma semana. Há falta de coerência entre o que se diz e o que se faz”, declara Francisco Fernandes.

Dados do inquérito revelam que 20% dos estudantes inscritos em exames na época de avaliação em curso tiveram a sua primeira avaliação agendada para os dois primeiros dias úteis do ano (02 e 03 de janeiro), e, entre estes, mais de metade (56%) realizaram o seu segundo exame até à passada sexta-feira, 05 de janeiro.

Outro dado que o inquérito revela é que 48% dos estudantes estão inscritos em, pelo menos, cinco exames nesta época de avaliação, referente ao 1.º semestre do ano letivo.

O presidente da FAP mostra-se “desagradado” com a falta de inovação pedagógica no processo de avaliação.

“O mundo mudou a uma velocidade nunca antes vista, se o ensino superior não se adaptar falhará a sua missão. Os professores do ensino superior são os únicos sem formação pedagógica. O método de avaliação é muitas vezes igual ao do tempo dos nossos avós”, observa o presidente a FAP.

Sobre os fatores associados ao declínio do bem-estar psicológico, a pressão no desempenho académico é a principal causa, apontada por 95% dos estudantes.

Outro dado é que 45% dos inquiridos considera que a carga horária letiva é excessiva e colocam esse fator entre os responsáveis pelo declínio do seu bem-estar psicológico.

“Continuamos com uma carga horária excessiva e aulas expositivas e unilaterais. Em Portugal, o tempo na sala de aula é cerca do dobro de países como o Reino Unido ou a França. É tempo de considerar a proposta da semana de quatro dias e diminuir a carga horária”, defendeu o presidente da FAP.

O inquérito revela ainda que na perceção de 75% dos estudantes, esse declínio tem interferido nas atividades académicas, todavia, deste acumulado de estudantes, apenas três em cada 10 conseguiram aceder a acompanhamento psicológico, sendo que 71% considera que o recurso a esse tipo de apoio é dispendioso.

Quando questionados sobre se já ponderaram interromper ou abandonar definitivamente o Ensino Superior, quatro em cada 10 estudantes responderam afirmativamente, sendo que 30% responderam ter ponderado interromper e 10% declararam ter ponderado abandonar definitivamente.

A amostra foi constituída por um total de 1.222 estudantes inscritos em instituições de ensino superior da academia do Porto, sendo 54% do ensino universitário público, 30% do ensino politécnico público e 16% do ensino particular e cooperativo.

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