Petição com mais de 1.800 assinaturas pede preservação dos jardins da Sé do Porto

À Lusa, a arquiteta Inês Moreira, investigadora e docente universitária que é a segunda signatária, explica que o grupo dos primeiros signatários inclui “cidadãos da sociedade civil, cada um com a sua área de interesse”.

Agosto 10, 2026

Uma petição com mais de 1.800 assinaturas apela à preservação dos jardins do morro da Sé do Porto, zona alvo de uma construção de um hotel pela Diocese, para o qual o bispo já pediu contribuições financeiras.

“Se nada fizermos, os jardins do Seminário Maior vão desaparecer sob uma nova construção de iniciativa da Sé e do Seminário, cujos proprietários lograram alterar para “hotel de 3 estrelas” tendo sido aprovado como “hospedagem monástica”, mantendo-se, no essencial, o mesmo projeto”, pode ler-se no texto da petição intitulada “Nem a Sé se salva? Petição pela preservação da área dos jardins da Diocese no morro da Sé do Porto”.

À Lusa, a arquiteta Inês Moreira, investigadora e docente universitária que é a segunda signatária, explica que o grupo dos primeiros signatários inclui “cidadãos da sociedade civil, cada um com a sua área de interesse”, como o historiador de arte João Batista, membros do Fórum Cidadania Porto, e pessoas ligadas ao Livre, como Hélder Sousa, ex-candidato do partido à Câmara do Porto, ou os deputados municipais Diamantino Raposinho e Gisela Leal.

A signatária considera que a zona do centro histórico “tem sido massacrada nos últimos anos pela especulação imobiliária, pela existência cada vez maior de hotéis”, mas vincou que isto se verifica “não só no centro, mas na cidade como um todo”, mas no centro “é como se fosse a última gota de água”.

“O que nos motiva é achar que há de haver um momento em que é preciso uma reflexão maior, é preciso parar este processo”, aponta, apelando aos membros do executivo de Pedro Duarte (PSD/CDS-PP/IL) que “queiram compreender que é o momento de parar, de suspender, de olhar para a cidade numa perspetiva mais ecológica, a pensar no futuro, que é preciso mais árvores, zonas mais frescas, pensar nas alterações climáticas, em quem vive e quem visita a cidade”.

Hoje, o jornal Público noticia que a autarquia quer, precisamente, recusar a licença de alojamento local ao empreendimento por entender que a função atual do Seminário “não é compatível com uma atividade de hotelaria ou alojamento totalmente independente e autónoma”.

Ao mesmo jornal, a Diocese referiu que se encontra em diálogo com o município para encontrar “soluções que se enquadrem na licença de obra emitida pela Câmara Municipal e que respeitem o espaço situado no centro histórico do Porto.”

Inês Moreira refere que o proposto é construir “mais 54 quartos em cima de uma série de socalcos que são um potencial jardim, um parque, hortas, chame-se o que quiser, mas zonas verdes”, afirmando ainda que “a vegetação já foi cortada” e “já está tudo árido”.

A peticionária alerta ainda que o projeto “está implantado em cima de dois túneis”, o da Ribeira (rodoviário) e o do Ramal da Alfândega (ferroviário, desativado), demonstrando preocupação com a abertura de “fundações naquela encosta de granito”.

“Portanto, talvez seja o momento de parar e de pensar o que é que nós desejamos para o futuro, como é que a cidade classificada [património mundial] pela UNESCO está a sofrer uma densificação absurda e a perder qualidades que tinha, porque a Sé sempre foi no topo de um morro”, apontou.

Para Inês Moreira, “faz sentido interferir, suspender, promover um diálogo e eventualmente gerar uma discussão” à boleia das assinaturas já conseguidas, e até “eventualmente suspender a obra”.

“Fomo-nos tornando um pouco passivos face ao centro histórico, habituamo-nos que é território dos turistas, habituamo-nos que aquilo é intransitável porque está sempre tematicamente dedicado ao turismo estrangeiro”, considera, alertando que agora é necessário pensar que se está “a abdicar dos espaços verdes no centro”.

Ao Público, a Diocese lembra que cede ao domínio público “cerca de 1.650 metros quadrados de superfície” para percursos pedonais e para criação de “um novo espaço verde” no centro histórico.

Em março, o bispo do Porto, Manuel Linda, pediu “o contributo de todos os cristãos” da Diocese para a reabilitação do Seminário Maior da Nossa Senhora da Conceição, falando em “obras caríssimas”, após a Maior Oporto Hotel, Lda, criada em novembro de 2023 e detida em 90% pela Diocese e em 10% pelo Seminário, ter lançado um concurso público de 13,7 milhões de euros para reabilitar o seminário e edificar o hotel.

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