Recolhidas sete peças religiosas do demolido Convento de Francos, no Porto

No lugar do Convento de Francos, abandonado desde 2001, está a nascer um empreendimento imobiliário com 15 fogos.

Março 27, 2026

 O Banco de Materiais da Câmara do Porto recolheu sete peças do Convento de Francos, que foi demolido para dar lugar a um empreendimento privado, entre elas duas esculturas e cinco painéis de azulejos.

Em resposta enviada à Lusa, a Câmara do Porto explica que recebeu, dos promotores da empreitada na Rua da Travagem, quatro painéis de azulejos de registo religioso, a que se soma um outro, do Brazão da Ordem da Virgem Maria do Monte Carmelo.

Estes painéis foram elaborados na Fábrica Cerâmica do Carvalhinho, que fechou atividade em 1977, e estavam instalados no refeitório e em corredores da capela.

Foram também identificadas “duas esculturas, uma das quais em gesso, proveniente da sala do coro, presumivelmente correspondendo ao modelo da imagem em granito que adornava a fachada principal da capela”.

Esta escultura tinha sido encomendada a Henrique Moreira pela Congregação do Coração Imaculado de Maria, a quem a Câmara do Porto agora restituiu as esculturas, tendo sido depositadas no Mosteiro de Bande, em Paços de Ferreira.

O Banco de Materiais da Câmara do Porto promove a salvaguarda dos materiais caracterizadores da imagem da cidade, recolhendo-os de edifícios degradados, a demolir ou a alterar, com a finalidade de serem mais tarde devolvidos à cidade.

No lugar do Convento de Francos, abandonado desde 2001, está a nascer um empreendimento imobiliário com 15 fogos, o que obrigou à demolição do último convento de clausura da cidade, localizado na freguesia de Ramalde.

Este edifício religioso está integrado num loteamento onde existem outros edifícios, junto à estação de metro de Francos, que começou no início deste ano a ser alvo de uma empreitada relativa a um processo de “licenciamento de obras de demolição e alteração”, dando origem a 15 novos fogos.

À Lusa, a autarquia informou então que, no caso do edifício relativo ao convento, está licenciada a sua demolição parcial, sendo que “na frente urbana da Rua da Travagem é proposta a construção de três fogos e a poente está previsto mais um fogo”, e que no interior deste prédio é “proposta a construção de 11 fogos”.

Nas imagens de arquitetura disponibilizadas no “site” de promoção do futuro empreendimento “Porto Gardens”, aprovado no anterior mandato autárquico, não é possível distinguir traços distintivos do traçado original do convento.

De acordo com o registo predial do imóvel, consultado pela Lusa, o convento pertence desde 2020 à sociedade Socibwana Imobiliária, que mais tarde, já em 2022, adquiriu outros dois prédios adjacentes, que passaram a integrar o loteamento.

Em 2020, uma responsável da Associação de Fiéis do Coração Imaculado de Maria, criada em 2017 com a pretensão de recuperar o imóvel, dizia à Lusa que o convento estava “na iminência de fechar”, sem um investidor que ajudasse a reconverter o espaço num “centro de acolhimento espiritual e cultural”.

Com cerca de 6.000 metros quadrados escondidos por uma igreja com menos de um século e por uma rua de casas térreas, o Convento de Francos foi fundado em 1951, por iniciativa de Marianna Ignez de Jesus de Mello da Silva da Fonseca de Sampaio.

No começo do século XXI, o espaço encerrou, o imóvel foi vendido e as irmãs lá residentes distribuíram-se por vários outros conventos do país, do Algarve ao Norte.

O convento, que chegou a acolher edições do festival de música No Noise, da associação Sonoscopia, esteve nas mãos da Globalurbe, enquanto a associação de fiéis tentava, a partir de 2017, recuperar o último convento de clausula da cidade, por iniciativa de Maria Teresa de Meireles Alte da Veiga, familiar da fundadora.

Com contrato de promessa de compra e venda, não foi possível arrecadar os fundos necessários para adquirir o imóvel, que a Globalurbe decidiu leiloar “online”, com uma base de licitação de 2,8 milhões de euros.

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