Transporte público no Ramal da Alfândega é “oportunidade gigantesca” para o Porto.

A Câmara do Porto vai apresentar até ao final do ano uma “nova política de estacionamento” na cidade, que passará pela redução do estacionamento à superfície e por dar prioridade aos residentes, revelou hoje o presidente da autarquia.
“Até ao fim do ano vamos apresentar a nova política de estacionamento para a cidade. Um dos caminhos que vai ter é reduzir o estacionamento de superfície e dar prioridade aos residentes. Portanto, vai fazer com que seja mais difícil estacionar automóveis para quem vier fora da cidade, ou quem estiver fora do seu local de residência”, anunciou Pedro Duarte.
Questionado pelo facto de haver zonas da cidade com mais estacionamento reservado a moradores do que outras, o autarca garantiu que essa é uma situação que será “revista”.
“A tal nova política de estacionamento tem a ver precisamente também para corrigir este tipo de situações e portanto a resposta é sim: vamos rever isso, vamos dar prioridade aos residentes e não vamos discriminar [conforme a freguesia]”, afirmou.
Ressalvando que o município “não vai aumentar o número de lugares à superfície” mas sim tentar diminuí-lo, Pedro Duarte quer criar mais parques de estacionamento – “seja enterrados, seja em altura”.
Apesar de ainda estar tudo em “aberto”, e de não querer “antecipar muito”, o autarca não escondeu saber que será essencial “olhar para os contratos” que a autarquia tem a nível de estacionamento, e disse estar a trabalhar juridicamente para que os residentes possam ter tarifas de estacionamento mais baixas do que quem vem de outros municípios e estaciona no Porto.
No Porto, a gestão do estacionamento não é feita da mesma forma em todas as freguesias. Existem quatro zonas de estacionamento de duração limitada (ZEDL), sendo que três foram concessionadas à empresa EPorto e uma é da responsabilidade da empresa municipal STCP-Serviços.
Para além de uma nova gestão a nível do estacionamento, Pedro Duarte afirmou querer implementar a curto prazo mais medidas para desincentivar o uso do automóvel dentro da cidade, estando a ser estudada a possibilidade de ser implementado um plano para pedonalizar o centro histórico.
“Sabemos que há algumas limitações – o túnel da Ribeira, por exemplo, tem um efeito muito importante de ligação na cidade – e nós não vamos poder tirar em absoluto, em todo o centro histórico, o trânsito automóvel. Mas acho que podemos trabalhar muito ali e tornar a zona muito mais aprazível”, afirmou.
O autarca partilhou que considera “inaceitável” haver, na zona da Alfândega, “um parque de estacionamento automóvel em cima do rio, na zona mais privilegiada, se calhar, da cidade” e anunciou ter como projeto “acabar” com o estacionamento ali.
A autarquia está ainda a trabalhar na criação de cinco novas zonas de acesso automóvel concionado (ZAAC) — na Sé, no Bonjardim, em Miguel Bombarda, na Batalha e em Tito Fontes — que se vão somar às outras cinco já existentes (Carmelitas, Cedofeita, Flores, Ribeira e Santa Catarina).
Quanto ao espaço dedicado ao transporte público, Pedro Duarte afirmou que o município vai aumentar, até ao final do ano, seis quilómetros aos corredores bus existentes (que passarão de 15 quilómetros para 21) e partilhou que o reforço do programa Via Livre (em que a STCP pode sinalizar o estacionamento indevido nestas vias) passou de ter registado 508 autos em agosto de 2025, para ter registado mais de 1.800 em agosto deste ano.
Começando pela Avenida Fernão de Magalhães, mas com a ambição de alargar o projeto à cidade toda, o município quer ainda instalar semáforos com sensores que detetem que os autocarros estão a aproximar-se e “passem para verde quando eles se aproximam”.
Quanto ao alargamento que o município tem feito da Rede 30 (que estabelece um limite de 30 quilómetros por hora de circulação) a várias zonas residenciais ou onde se registem elevado número de acidentes, Pedro Duarte reconheceu que, para já, se trata de uma medida mais “pedagógica”, mas que será lançado no início de 2027 um concurso público para adquirir um sistema de controlo de velocidade através de radares que estará espalhado um pouco por toda a cidade.
“Nós percebemos que o automóvel é muito importante para muitas famílias, é muito importante para muitos setores da atividade económica, para muitos profissionais, e não estamos a fazer uma guerra ao automóvel. Mas temos de perceber que tem que ser mais compensador andar de transporte público do que de transporte individual”, concluiu.
Transporte público no Ramal da Alfândega é “oportunidade gigantesca” para o Porto
O presidente da Câmara do Porto revelou hoje, em declarações à Lusa, estar a ser estudada a implementação de transporte público no Ramal da Alfândega e que esta é uma “oportunidade gigantesca” para retirar carros do centro da cidade.
“O nosso objetivo é criarmos um meio de transporte público ali, entre a Estação de Campanhã e a zona da Alfândega (…), porque aquilo é um ramal excecional, que já está feito e que vai ajudar imenso a tirar carros da zona do Centro Histórico”, avançou Pedro Duarte.
O autarca disse tratar-se de uma “oportunidade gigantesca” a possibilidade de quem chega ao Intermodal de Campanhã poder, “em pouco mais de cinco minutos”, chegar ao centro da cidade através de um só meio de transporte.
Questionado pelo tipo de transporte a ser implementado no ramal, Pedro Duarte disse estar ainda a ser estudado, mas admitiu que “seja um [transporte] pequeno, um elétrico ligeiro, ou uma pequena carruagem”.
Sobre a possibilidade de ser implementada uma ciclovia neste trajeto, afirmou “não ser contra” mas considerou ser “difícil”, por haver “declives muito significativos”.
“Mas não quero ser eu, sem ver estudos técnicos, a fechar isso. A nossa prioridade é, claramente, o transporte público, isso não há dúvida. Se eventualmente é compatível com outras coisas, logo veremos”, acrescentou.
Entretanto, os serviços municipais precisaram de proceder à limpeza de todo aquele ramal, que “estava intransitável” e não tinha “sequer condições para os engenheiros, arquitetos e afins poderem ir avaliar o estado em que está e a viabilidade de projetos futuros”.
Quanto à Ponte Maria Pia, Pedro Duarte ressalvou que esta “não tem uma relação direta com o Ramal, porque estão em cotas diferentes” e que não pode garantir que esta volte a ser circulável.
“Nós temos conversado com Gaia, já ouvimos algumas entidades, e queremos muito valorizar aquele património. Estamos a estudar viabilidades que possam existir naquela ponte”, acrescentou.
Em março de 2025, o então presidente Rui Moreira apontou, durante uma reunião da Assembleia Municipal do Porto, “problemas técnicos” que dificultavam o transporte público de passageiros no Ramal da Alfândega e disse que o município aguardava o desenho da linha ferroviária de alta velocidade.
O ramal liga Campanhã a Miragaia num percurso misto em túneis e a céu aberto, e está desativado desde 1989, tendo sido utilizado para o transporte de mercadorias até à Alfândega do Porto.
Um estudo da STCP Serviços, apresentado em outubro de 2023, avançava que a recuperação do ramal poderia ascender a 22 milhões de euros, enquanto a adaptação a uma solução rodoviária custaria metade, cerca de 10,7 milhões de euros (1,2 milhões de euros referentes aos veículos e 9,5 milhões de euros referentes à infraestrutura), tendo como “cenário base” a ligação direta entre Campanhã e a Alfândega.
O estudo indicava ainda que qualquer uma das soluções deveria ter “uma procura potencial” de 2.800 passageiros por dia e entre 835 mil e um milhão de passageiros por ano, dos quais 60% portugueses.
A STCP Serviços avaliou também a construção de três estações, as características dos túneis e estimativa de custo, bem como as soluções ferroviárias e rodoviárias compatíveis com o ramal, que conta com aproximadamente 3,7 quilómetros de extensão, dos quais 1,3 quilómetros são em túnel.
As dimensões do túnel, nomeadamente a sua largura (3,2 metros), e a existência de uma conduta de abastecimento de água “limitam as soluções” a adaptar naquela infraestrutura.